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Conspirações

Já na introdução a seu ensaio sobre como as teorias conspiratórias envenenaram a América, cientista político faz menção ao Brasil. Sim, estamos presentes na história do conspiracionismo

Sérgio Augusto, O Estado de S. Paulo

13 de abril de 2019 | 02h00

Como nos ensinou um epigramista francês do século 19, “plus ça change, plus c’est la même chose”. Quando não piora. 

Fique à vontade para invocar o príncipe de Falconeri, o nobre epigramista de Lampedusa, para quem tudo precisava mudar para tudo continuar na mesma, ou a Lei de Murphy – que me parece tão indissociável do atual governo quanto a pluviosa e trovejante nuvenzinha da cabeça de Joe Btfspik, aquele enfezado personagem das tiras de Ferdinando Buscapé. 

Já que tudo que pode dar errado está dando errado mesmo, não foi surpresa o que ocorreu com a troca de ministros no MEC. A única diferença entre o defenestrado e o que assumiu, conforme bem notou Bernardo Mello Franco, é o sotaque. Falam a mesma linguagem, têm o mesmo discurso, as mesmas ideias fixas e, pior de tudo, fazem praticamente as mesmas ameaças, o entrante com mais ardor e ênfase que o retirante.

Se Vélez Rodríguez via influência comunista até no bê-á-bá aqui ensinado desde sempre (“bê, de bolchevique”, devia matutar o colombiano), seu substituto já a detectou, triunfante, em todas as instituições do país. Todas. No topo de bancos e financeiras, no topo das empresas jornalísticas, no topo das grandes corporações, acusou ele num vídeo viralizado e vilipendiado na internet.

Nem o senador Joe McCarthy atirou em tantas direções com sua metralhadora ideológica.

Abraham Weintraub compartilha das principais paranoias do núcleo pétreo do bolsonarismo distribuído pelos ministérios das Relações Exteriores, da Família e Direitos Humanos, do Meio Ambiente, um bando de lunáticos que nem sequer em Freedonia, a ditadura zoneada pelos irmãos Marx em Diabo a Quatro, teriam vez, até porque não são engraçados, apenas aldrabões fanáticos movidos a delírios que acreditávamos sepultados com a Guerra Fria e a teorias conspiratórias, que continuam sendo o curinga retórico dos bolsonaristas. 

Algumas dessas teorias – “a Terra é plana”, “o primeiro matemático foi Deus”, “o aquecimento global é uma invenção marxista”, “o comunismo tomou conta das escolas”, “urnas eletrônicas não são confiáveis”, “alguém do PT vai vazar o exame do Enem”, noves fora a “mamadeira de piroca” desvairada pela pastora Damares durante a campanha eleitoral – se não plagiam literalmente, readaptam ao Boçalnistão o repertório de mentiras e hipérboles sem fundamento real regurgitadas pela ultradireita internacional, com o objetivo de instaurar o medo e evangelizar a ignorância e a burrice, para mais facilmente impor um notório projeto de poder. 

Já na introdução ao seu precioso ensaio sobre como as teorias conspiratórias envenenaram a América, Conspiracies of Conspiracies, lançado em março pela University of Chicago Press (432 páginas, US$ 10 no kindle), o cientista político Thomas Milan Konda faz menção ao Brasil. Sim, estamos presentes na história do conspiracionismo. 

Konda não se refere especificamente aos birutas doutrinados por aquele astrólogo da Virginia que me recuso a promover, mas à Eco-92, no Rio, que foi onde teve início a satanização da Agenda 21, o acordo internacional sobre questões climáticas, como um complô do “comunismo global”, uma das obsessões de nosso chanceler e incontáveis dementes americanos, majoritariamente encastelados em emissoras de rádio e TV. Numa reedição atualizada do livro, na certa ganharemos mais destaque.

O ensaio é de uma riqueza histórica ímpar. Creio que todas as vigarices alarmistas para enganar trouxa, em circulação na América desde o século 19, estão ali abordadas, com detalhes que vão do hilariante ao repugnante. 

Os EUA tinham menos de 10 anos de existência quando líderes religiosos da Nova Inglaterra soaram o alarme contra supostos planos dos Illuminati para destruir a nascente república laica, embora de formação protestante. Foi naquela cruzada que os primeiros americanos experimentaram o pânico provocado pelo conspiracionismo.

Membros de uma sociedade secreta da época do Iluminismo, fundada na Baviera em 1776, mesmo ano da independência dos EUA, os Illuminati opunham-se à superstição, ao obscurantismo, à influência religiosa sobre a vida pública e aos abusos do poder do Estado. Os puritanos, sentindo-se ameaçados, lhe deram um tratamento inquisitorial. 

Depois foi a vez de os maçons serem ameaçados com o fogo dos infernos. 

Antes de inventar o Código que lhe daria fama e fortuna, Samuel Morse comandou uma campanha contra o imperador austríaco Francisco José 1.º, a quem acusava de orquestrar um conluio para enfraquecer a América, apinhando-a de católicos. 

Com o passar do tempo, novos demônios foram se sucedendo no índex dos fundamentalistas, insanos e espertalhões: os banqueiros britânicos, os judeus, os anarquistas, os socialistas, os evolucionistas, os sionistas, os progressistas, Franklin Roosevelt (acusado de planejar o ataque a Pearl Harbor), John Kennedy (assassinado), Obama (cuja nacionalidade americana até hoje é posta em dúvida), os códigos de barra (considerados uma conspiração satânica quando introduzidos em 1974), os rastos de condensação deixados no céu pelos aviões a jato (“nuvens secretamente contaminadas de doenças”), as vacinas de modo em geral (uma cabala farmacológica), a destruição das torres gêmeas (executada por forças ocultas, não por terroristas da Al-Qaeda) – o elenco é vastíssimo e aumentou exponencialmente nas últimas décadas, com a adesão de mais radialistas e teledoidos apocalípticos potencializados pela internet. 

O conspiracionismo já ajudou a derrubar vários presidentes e a eleger Trump e Bolsonaro. Não foram os únicos. Se tivermos sorte, podem ser os últimos. Por algum tempo. 

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