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Conselhos sábios?

Onde posso justificar o hábito de leitura? Basta ver como agem as pessoas públicas que você sabe que não buscam livros

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

10 de outubro de 2021 | 03h00

Viver é fascinante. Defeitos? Primeiro: não há manual de instruções. Segundo: nunca dá tempo para um bom ensaio, tudo é apresentação real. Como superar tais deficiências? A Bíblia indica: “Escuta o conselho e aceita a correção para seres sábio no futuro” (Prov. 19,20). Conselhos seriam úteis?

Os teólogos acreditam em ser sábio ao ouvir o conselho correto. Os filósofos acreditam que eu possa me tornar amigo da sabedoria refletindo. Selecionei algumas ideias para seu exame. Dizem que, se conselho fosse bom, não seria dado, porém vendido. Não é o caso aqui: você pagou a assinatura do jornal ou, ao menos, a luz elétrica que abasteceu o aparelho... Não foi gratuito, logo, pode ser válido. Não se trata de um manual de instruções. Eu diria que é uma “pesquisa de mercado” de consumidores experientes sobre cuidados com o produto vida. 

1) Aprenda logo: não importa sua decisão, haverá críticos. Decidiu se casar ou tem horror ao compromisso matrimonial? Terá um filho? Optou por dois? Nenhum? Corre todo dia? Viaja bastante? Nunca sai de casa? Contribui para uma ONG de amparo a cães abandonados? Não importa. Lá estará seu detrator: um amigo, um familiar, um vizinho... Por vezes, dorme com você. Se tudo é alvo de algum ataque, tome a decisão, escute quem desejar e “vá fundo”. A universalidade da crítica o liberta. Em outras palavras: já que sempre haverá quem reclame, ao menos conviva com críticos sendo feliz. Gostou da ideia? Procure ler, em qualquer versão, a história do “velho, o menino e o burro” de Esopo e reflita muito. 

2) Os seguintes vêm do filósofo Michel de Montaigne. No capítulo 39, livro primeiro, dos seus Ensaios, ele pensa sobre estar só ou com muitas pessoas. Ponto importante: “O contágio é muito importante na multidão”. Significando que podemos, sem querer, imitar hábitos alheios ao insistir em estar sempre cercados de pessoas, especialmente as de maus hábitos. “Onde quer que a alma esteja ocupada, ali está inteira”, assim ele recomenda o cuidado com sua própria casa ou o governo de um país. Nossos defeitos nos acompanham em todas as viagens, pois “carregamos conosco nossos grilhões”. Buscar estar bem mesmo sozinho é uma meta de sabedoria. O ideal é que nosso contentamento dependa de nós. E na maturidade? “Já vivemos por outros o suficiente; vivamos para nós pelo menos esse final de vida” (segui a tradução de Rosemary Costhek Abílio, ed. Martins Fontes).

3) Indiquei ignorar opiniões muito negativas, já que parecem inevitáveis. Apoiei-me em um renascentista francês para defender a felicidade sem a necessidade de estar acompanhado. O terceiro não contradiz, todavia coroa os dois anteriores: tenha poucos, pouquíssimos amigos. São fundamentais e fruto de uma grande maturidade. A vida é muito difícil sem uns dois ou três amigos realmente sinceros. Siga o conselho de Polônio (Hamlet) ao filho: “Os amigos que tens por verdadeiros, ata-os com fios de aço a tua alma”. Se preferir sabedoria mais recente, reflita com Vinicius de Moraes: “O amigo: um ser que a vida não explica/ Que só se vai ao ver outro nascer/ E o espelho de minha alma multiplica...”. Repito: serão milhares de transeuntes na sua vida, muitos colegas e poucos, escassos, raros amigos. Invista seu tempo e afeto neles, seja simpático com os colegas e tolere, resignado, os outros seres humanos. 

4) Leia sempre, todo dia, a vida inteira! Um livro por semana é algo muito bom. Não consegue? Dois por mês. Um único mensal, ao menos. O feito é melhor do que o perfeito. Livro é banho: tem de fazer diariamente ou o cérebro exalará odores fétidos. Livro é alimento: suas ideias morrem de inanição sem eles. Livros são o sangue do pensamento: nunca deixe que a anemia o domine. Romances, livros técnicos da sua área, poesia, livros de viagem, biografias, análises de temas atuais, reportagens, clássicos: leia tudo! Domine suas desculpas esfarrapadas. Em caso de dúvida, leia mais. Tem filhos? Vacine, ame, alimente e leia para eles. É uma herança maravilhosa, a maior que você possa deixar. 

5) Tristeza faz parte da existência. Assuma a dimensão trágica do existir. A vida, fora do Instagram, tem dias ruins. Não confunda tristeza com infelicidade e alegria com felicidade. Seria como misturar chuva (estado passageiro) com clima (característica mais duradoura). Se as coisas deram errado, você perdeu seu emprego, terminou um afeto de forma dolorosa ou você foi traído ou traída, a dor vem e deve ser sentida. Chorar não é erro moral. Nos dias tristes, muito respeito consigo e com seu momento. Há dores mais prolongadas e outras que necessitam de ajuda profissional. Todas necessitam de amigos. Lembra-se do conselho? São nosso espelho e, por vezes, devo olhar para ele. Receita de superação: tempo + chá calmante + sono + amigos. Ler ajuda muito também. 

Inspirado no estoicismo, tratei de como enfrentar a crítica permanente do mundo. Segui apelando a Montaigne e a necessidade de ser feliz consigo. Vagas memórias de Aristóteles e outros reforçam a necessidade de amigos como parte da vida virtuosa. Onde posso justificar o hábito de leitura? Basta ver como agem as pessoas públicas que você sabe que não buscam livros. Excelente exemplo! Por fim, busquei um pouco de Byung-Chul Han para pensar na positividade tóxica que nos acomete. Foi lendo que tive tais ideias. Lendo, você acompanhou meu pensamento e dos meus preceptores. Lendo, você pode criticar a mim e a eles. Boas leituras. 

* Leandro Karnal é historiador, escritor, membro da Academia Paulista de Letras, autor de A Coragem da Esperança, entre outros

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