Conselhos de um velho lobo do blues inglês

John Mayall, expoente da explosão britânica dos anos 60 e atração de festival, comenta a vida na estrada aos 80 anos

ROBERTO NASCIMENTO , O Estado de S.Paulo

05 de junho de 2013 | 02h08

Aos 80 anos, o britânico John Mayall já entrou para o seleto clube de highlanders do blues. Não é pouca coisa, mesmo em uma profissão que valoriza as rugas e cujos veteranos carregam os últimos lampejos de uma chama que jamais será reconstituída pelas novas gerações. Afinal, 50 anos quase ininterruptos de palco é um marco que nem os Rolling Stones alcançaram, e conferem ao lendário Mayall o status de patrimônio cultural - ou como a minguante leva de veteranos do jazz em atuação, o status de poeta itinerante a quem ouvimos quando queremos saber como as coisas eram feitas antigamente.

Assim, enquanto houver estrada, Mayall há de fazer turnê, seja em inferninhos ou em eventos dedicados ao seu gênero como o Best of Blues Festival, que ocorre em São Paulo, de terça a quinta-feira da semana que vem e conta com a participação do músico. "Eu nunca vou alcançar o B.B.", conta Mayall, com risos e voz surrada, ao Estado, referindo-se ao reverendo King. "Mas ele nunca desiste não é? Então por que eu desistiria? Faço turnê todo ano e enquanto eu tiver forças, assim será pelos próximos anos", afirma ele.

É tanto tempo de estrada desde que Mayall antecipou a explosão do blues britânico, no início dos anos 1960, e largou o emprego de designer gráfico para formar os Bluesbreakers, que o músico lança material arquivado com frequência.

"Estava fuçando as fitas antigas no ano passado, e descobri uns shows incríveis. Nos anos 70 com Sugarcane Harris e Harvey Mandel, nos anos 80 com Buddy Whittington e Coco Montoya. Achei tanta coisa boa que tive de lançar três discos, dois a mais do que eu tinha planejado", conta Mayall, que vende os álbuns pelo seu site, www.johnmayall.com.

São documentos de uma banda seminal, quase uma escola do blues, que já teve Eric Clapton e Jack Bruce (do Cream) em sua escalação, assim como Mick Taylor, ex-Rolling Stones, e John McVie, do Fleetwood Mac. Hoje em dia, a banda ainda segue os mesmos princípios de contratação e conta com Rocky Athas (guitarra) Jay Davenport (percussão), e Greg Rzab, que já acompanhou lendários como Otis Rush e Buddy Guy.

Com toda sua quilometragem, Mayall mantém-se fiel à raiz visceral do blues e se abstém de qualquer pronunciamento mais intelectual sobre o tempo e o que aprendeu em todos esses anos: "O blues sempre será contemporâneo. Você não pensa sobre ele, apenas toca com os músicos que tem, seja lá quem estiver por perto. E assim ele acontece. Uma piscina de ideias começa a se formar e o que tocamos passa a ser uma versão atualizada da música. Mas não é nada que possamos pensar em demasia. Ele simplesmente acontece".

Mesmo assim, não há como negar a função de instrutor que Mayall exerce desde que formou a banda. Talvez isso seja porque o músico sempre foi mais velho que seus contemporâneos, e quando botou o bloco na rua já tinha mais de 30, uma década a mais do que Eric Clapton, que, por exemplo, tocou com os Bluesbreakers em 1965. Mayall já tocava blues nos anos 50, antes da explosão britânica, e era dono de uma extensa coleção de discos, comprada com seu dinheiro de designer gráfico. "Eu fiz faculdade de artes comerciais. Trabalhava todo dia e a música era um hobby. Então, quando Alexis Korner e Cyrill Davies começaram a ficar famosos, eu me mudei para Londres para formar os Bluesbreakers", conta. "Quando entrei para a cena, percebi que tinha muito mais experiência que todo mundo. O pessoal estava começando, tocando com os discos ainda. Mas eu já sabia o caminho das pedras", completa o músico, que tem o piano elétrico como instrumento principal, mas é conhecido por sua gaita e por sua guitarra também.

A banda foi formada em 1963, mas só em 1965 começou a ser chamada de Bluesbreakers. Em 1966, lançaram o clássico John Mayall & the Bluesbreakers with Eric Clapton, que ficou tão conhecido pelos solos e pelo som que o guitarrista tirou de sua Les Paul, que é considerado um dos discos de guitarra mais influentes de todos os tempos. A partir de então, iniciou-se o flexível line-up dos Bluesbreakers, que ao todo, já contou com mais de 100 músicos diferentes (na época, até Jimmy Page envolveu-se com a banda, produzindo uma faixa, I'm Your Witchdoctor, em 1965). Mas a primeira encarnação dos Bluesbreakers durou apenas até 1969, quando Mayall abandonou o nome e seguiu em carreira solo. Não perdeu a força e continuou sendo um dos seminais bluesmen britânicos, embora tenha montado a banda novamente apenas em 1982. Em 2003, na ocasião de seus 70 anos, Mayall juntou-se a Clapton apenas por um show.

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