Conselhos afiados do pai de João Ubaldo

Cronista apresenta as dez melhores orientações herdadas de Manuel Ribeiro

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

22 de março de 2011 | 00h00

Manuel Ribeiro foi um homem austero e assim educou seu filho mais velho, o hoje escritor e cronista do Estado João Ubaldo. Apesar da severidade paterna, os conselhos foram úteis para a formação do garoto, que não só os aplica como utiliza como fonte de inspiração - é o que explica o pequeno mas gostoso Dez Bons Conselhos de Meu Pai, lançado agora pela Objetiva.

Trata-se de uma obra infantil, em que ordens aparentes como "não seja burro" ou "não seja amargo" são repassadas de forma idílica. Sobre o assunto, Ubaldo respondeu às seguintes perguntas.

No livro Política, você repassa ao leitor os conselhos, de teor político, que seu pai lhe dava. Agora, temos o livro infantil. Por que você guardou durante tanto tempo esses conselhos?

Se você pergunta por que os guardei reservadamente, eu não fiz isso. Sempre reproduzi, de uma forma ou de outra, esses conselhos na minha vida cotidiana e os passava quando achava oportuno. Eles não eram sistematizados, como aparecem tanto no Política quanto no livro infantil, quem resolveu aproveitá-los em forma de "decálogo" fui eu. Se você se refere ao fato de eu ter preservado e observado esses conselhos ao longo de minha existência, é porque sempre os achei úteis e sempre procurei segui-los. Não são, é claro, nenhuma contribuição ao pensamento ocidental, mas apenas a sabedoria e os valores de um homem, como meu pai, que defendia a dignidade humana, a liberdade e a igualdade de direitos e deveres. São apenas palavras de um pai que quer educar seu filho dentro dos princípios que acata e considera eticamente fundamentados.

A forma como você se dirige à criança, no livro, assemelha-se à que seu pai utilizou?

Não. Ao longo de minha convivência com meu pai, eu fui "destilando" esses ensinamentos, a partir de conversas, repreensões, comentários sobre alguns acontecimentos familiares ou públicos. E a conduta dele, que - como costumam fazer os filhos em relação aos pais - eu admirava e procurava imitar, também me serviu de fonte para esses conselhos. E eu não escrevi o texto para crianças. Eles estão no livro infantil como estão no Política. Acho que dá para a meninada entendê-los bem, principalmente se discutidos ou analisados.

É curiosa a relação com seu pai, sempre muito duro em sua educação. Como você avalia hoje os métodos que ele utilizava?

Não acredito que os métodos de meu pai sejam hoje considerados, digamos, apropriados. Meu pai era um homem de temperamento forte, obcecado pela ideia de excelência em tudo o que se fizesse e muito rigoroso. Exigia muito, cobrava o tempo todo e me impunha tarefas de todo tipo, desde copiar sermões de Antônio Vieira nas férias escolares até "tirar" as letras das canções francesas que ele ouvia no que então se chamava de radiola. Fazia questão de boas notas, não tinha paciência com fracassos, não gostava de ouvir queixas ou lamúrias e dizia sempre que eu podia fazer melhor, era duro mesmo. Se eu, por exemplo, cometesse a imprudência de perguntar a ele o significado de uma palavra, ele me mandava ao dicionário e, quase sempre, copiar o verbete. Enfim, não creio que ele fosse o que poderia ser chamado de um educador moderno.

A biblioteca de seu pai era muito cobiçada. Como era o acesso?

O último casarão em que moramos, antes de a família sair de Aracaju e voltar para a Bahia, era enorme e tinha livros em todas as paredes, de praticamente todas as dependências da casa. Era impossível vedar o acesso aos livros, a não ser que se interditasse a casa. A gente tropeçava neles, passando pelos corredores. E eram livros sobre todos os assuntos. Meu pai era jurista e professor de História, mas se interessava por tudo, de Filosofia a esportes, de maneira que a livrama refletia isso. Eu podia ler o que quisesse, além do que ele mandava e dos livros que comprava para mim, como os de Monteiro Lobato. De vez em quando, ele proibia um livro, mas não o escondia. Depois de adulto, ele me contou que alguns dos livros eram proibidos mesmo, ai de mim, se tivesse sido pegado lendo um deles. Mas outros ele proibia para espicaçar minha curiosidade. Foi assim que, ao 10 anos, por exemplo, eu li Salambô, de Flaubert, achando que ia encontrar sacanagem. Devo ter lido uma porção de outros da mesma forma. Já os livros de meu avô, não tinham censura prévia nenhuma e eram uma esculhambação, porque ele roubava livros de meu pai e de todos os parentes e amigos, para depois soterrá-los numa montanha na casa dele, que eu podia escalar à vontade, talvez até pudesse chamar isso de alpinismo literário.

DEZ BONS CONSELHOS DE MEU PAI

Autor: João Ubaldo Ribeiro

Ilustrações: Bruna Assis Brasil

Editora: Objetiva

(56 págs., R$ 34,90)

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