Conselheiros dão voto de confiança à diretoria do Masp

Aparentemente, nada muda no Museu de Arte de São Paulo (Masp): após uma reunião de mais de três horas no prédio da Avenida Paulista, os conselheiros do museu decidiram na quinta-feira que darão um "voto de confiança" à atual diretoria, que vem gerindo o museu nos últimos 12 anos. Mas há uma brisa de mudança no ar: os integrantes do conselho anunciaram a intenção de, em um mês, discutirem a adoção de um plano cultural para o Masp e a contratação de um curador profissional, tirando das mãos do atual presidente, Júlio Neves, a responsabilidade direta pela parte artística.O Conselho Deliberativo do Masp começou a reunião na Paulista às 17 horas. Na pauta, a crise recente da instituição, que levou ao corte de luz pela AES Eletropaulo, em maio, e as dívidas do museu, que se avolumam - deve cerca de R$ 4 milhões para o INSS, motivo pelo qual foi obrigado a penhorar uma obra avaliada em R$ 4,2 milhões. Havia também uma expectativa de mudança administrativa - haverá eleição para presidente este ano."Acho que não vai mudar nada, porque ninguém vai querer pegar esse abacaxi", disse, ao chegar ao museu, a conselheira Graziella Matarazzo Leonetti di Santo Janni. "Tenho andado afastado. Hoje é que vamos saber o que está acontecendo", disse Alex Periscinoto. "Vamos ver", disse Andrea Calabi. "O que precisa é uma certa compreensão maior do papel desse museu, do envolvimento da sociedade, dos governos municipal, estadual, federal, para que esse museu seja o que de fato é", ponderou José Aristodemo Pinotti.Mas a pauta incluía também outros problemas. Como, por exemplo, a posição inflexível do patrimônio histórico municipal de não permitir o projeto de construção de uma torre turística no prédio vizinho ao museu. O edifício foi comprado pela companhia telefônica Vivo e doado ao Masp, com a condição de fazer o mirante.O Masp se encontra na iminência de perder o presente da Vivo, que custou R$ 15 milhões (outros R$ 7 milhões seriam destinados à reforma). Ontem, o museu informou que briga na Justiça contra o Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo (Conpresp). Caso não seja possível fazer o mirante, o museu informou que é possível devolver o prédio sem ônus."O único empecilho é o Conpresp. O Condephaat e o Iphan aprovaram. Nós estamos tentando reverter na Justiça. Se vamos conseguir ou não, depende da Justiça", disse Adib Jatene, presidente do Conselho Deliberativo do Masp. "Em várias grandes cidades do mundo você tem torres e mirantes."A questão é mais complicada do ponto de vista da legitimidade do projeto. Ele não foi submetido à população de São Paulo para que ela opinasse, e o plano arquitetônico não é fruto de um concurso ou debate. É de autoria do próprio presidente do Masp, que alega que a sua "gratuidade" é o motivo do seu acolhimento.Segundo informaram os conselheiros, a torre foi pensada como um atrativo turístico importante que resolveria o problema financeiro do museu. "Quando se propôs construir a Torre Eiffel em Paris, foi uma coisa louca, diziam que ia conspurcar a pureza da cultura francesa. E fizeram críticas horríveis à Torre Eiffel. Se tivesse na época um organismo como o Conpresp, com poder de veto, seguramente ela não teria sido feita", disse Jatene. "E hoje ela é o símbolo da França."De acordo com o cirurgião, há muita gente contra mas também muitos a favor, como a Associação Paulista Viva e organismos de turismo. "Nós pretendemos continuar insistindo na torre. Se vamos conseguir ou não, é secundário. Mas estamos discutindo dentro de uma idéia de que não há destruição da ambiência, não vai ser uma coisa que vai ter mais visibilidade que o museu, será do museu."As informações sobre o que foi discutido na reunião permite pressupor que haverá uma ingerência maior do Conselho Deliberativo nas ações da diretoria do Masp. "Tem de ouvir as pessoas, tem de ouvir o conselho. Não pode a diretoria fazer de sua autodeterminação, tomar decisões sem que o conselho convalide", disse Jatene.

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