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Conjugal variado

Da moldura quadrada de seu casamento, saltaram para a cama redonda dos motéis

Humberto Werneck, O Estado de S. Paulo

21 de maio de 2019 | 02h00

A implosão

 Era um casal antigo – do tempo em que os casamentos duravam mais que os móveis da Tok & Stok. Se brigavam, era numa intimidade à prova de berreiro e louça estilhaçada. Para a vizinhança, que os via desfiar as tardes na varanda, aposentadíssimos, ela no tricô, ele na leitura, eram a própria felicidade conjugal. 

Até o dia em que ele ouviu do cardiologista uma sentença inapelável. 

– Quanto tempo? – pôde apenas tartamudear. 

– Se o senhor levar uma vida tranquila, sem aborrecimentos... 

Sem aborrecimentos? Ainda hesitou, à saída do consultório, olhos cravados em lugar nenhum – e então, subitamente decidido, varou o caudal da multidão de fim de tarde, disputou um orelhão e comunicou à mulher que não o esperasse. A que hora voltaria? – Nunca! Nunca! – rugiu ele. Mandaria buscar suas coisas, todas, está me entendendo? E, em meio ao alarido do rush, fez desaguarem – sua isso! sua aquilo! – rancores represados nos cafundós de uma união que já cumprira um colar de pedras e metais nupciais, e que se desdobrara em filhos, netos, dali a pouco bisnetos.

Desabada na cadeira, ela chegou a pensar que o companheiro, sempre tão atencioso, tivesse endoidado – até se dar conta de que estava protagonizando o que pode ter sido o primeiro divórcio por orelhão. 

Para encurtar: disse que não voltava, e não voltou mesmo. Foi morar no prédio ao lado, sob as asas maternais de uma das filhas. A área de serviço dava para os fundos do antigo lar, e era ali que ele se postava, hierático, o barrigão senhorial forçando os suspensórios, a encarar a ex-mulher – que a poucos metros de distância, com seu vitalício penhoar de florzinhas, também o encarava. Sempre em silêncio, pois nunca mais trocaram palavra, nem mesmo para despejar uns desaforos. Mas era o tempo esfriar e ela telefonar para a filha: 

– Vê se o teu pai está bem agasalhado. Bota um cachecol. Meia de lã. Joga um casaquinho nas costas. 

O que não impediu que, ano e pouco mais tarde, com agasalho e tudo, uma pneumonia, e não as coronárias, o levasse.

Mas já faz tempo. Depois disso, os móveis da Tok & Stok melhoraram, e os casamentos, pioraram.

*

A recaída

Como tantos casamentos, tem separações que não dão certo – e foi o que se passou com aqueles dois. Separaram-se “numa boa”, tão boa que a decisão não tardou a fazer água. Quem mandou entrarem num esquema de se verem para “um cineminha apenas”, cineminha apenas que a certa altura passou a incluir uma esticada para “um chopinho apenas”? 

Dali para o motel foi um pulo, e na cama redonda entregaram-se à desenvolta lambança de que, na moldura quadrada de sua vida conjugal, jamais tinham sido capazes. Chegaram mesmo, se me permitem descer a tais detalhes, a fazer uso daquela coisa – poltrona? cadeira? – de metal laqueado, com jeito de instrumento de tortura mas concebida com objetivo oposto, para, como numa academia de ginástica, diversificar as posições e, de quebra, revelar talentos circenses ao sabor do mais descabelado Kama-Sutra. Trataram-se, enfim, com guloseimas eróticas que na vigência do casamento só haviam saboreado nas respectivas puladas de cerca.

Quem mandou? Daí a pouco estavam os dois na via-sacra das imobiliárias, ao mesmo tempo que iam recompondo a tralha doméstica. 

No fogaréu novamente aceso da paixão, esqueceram-se por completo dos trâmites do divórcio, e foi com genuíno espanto que um dia receberam, em seu separódromo (chamemos assim a esses flats aonde vão dar tantos náufragos de separações), uma notificação para comparecerem perante o juiz. Não sabiam que bastava ignorar o papelucho: tementes à lei e à polícia, acharam que estavam obrigados a ir, e assim fizeram, circunspectos, num começo de tarde. Não tão circunspectos que não pudessem antes almoçar nas imediações do Fórum, com todas as caipirinhas a que têm direito os apaixonados, de forma que estavam alegrinhos quando se viram diante do juiz, o qual enveredou por uma discurseira edificante. O amor. A árdua construção do amor. O casamento. Os filhos, abençoados frutos dessa união. 

Neste ponto do recitativo, o divorciando – criemos o termo – se manifestou:

– Taí, o senhor me convenceu. Não vou separar não.

Como nos velhos romances, o meritíssimo franziu o sobrolho: como assim?! – reagiu – e, com a severidade da toga, sacudiu advertência na ponta do dedo: 

– O senhor pense bem no que está fazendo! 

*

A vingança

O marido era o chato integral, chato full time, e ninguém soube disso melhor do que a mulher, hoje uma viúva não apenas conformada como incontrolavelmente aliviada.

Entre mil rabugices, ele não admitia que ela fosse comprar sapatos sem a sua companhia, tão certo estava dos propósitos lascivos do vendedor. Só ele, esposo, podia pegar no seu pé – e não fazia outra coisa, mas apenas em sentido figurado. Pouco importava se o andar do tempo houvesse enchido aqueles mimos de joanetes e calosidades: para o marido, não havia no mundo nada mais apetecível aos olhos de outros machos, sobretudo aqueles que trabalham em sapatarias.

Já eram avós quando ele sofreu derrame cerebral, e derramado ficou até o fim. Da poltrona onde o instalaram, mudo para sempre, não desistiu de seguir controlando, com o laser de seu olhar implacável, a mulher, os filhos, a empregada e o cachorro.

Como houvesse providências a tomar, a mulher reuniu coragem para fazer o que ele nunca permitira: mexer nos seus guardados.

Da gaveta do criado-mudo saltou a confirmação do que ela no fundo já sabia, mas, orgulhosa, se recusava a admitir: uma família paralela, completa e equipada, com tudo o que isso significa, do aluguel do apartamento ao certificado de garantia da batedeira de bolo, passando pelas prestações de viagem de alguma filha a Bariloche. A mesma, talvez, com quem ele, empertigado, aparecia dançando numa foto de baile de formatura.

O guarda-roupa, com seu hálito pesado de décadas passadas, guardava surpresa ainda melhor que a família paralela: lá no fundo, atrás dos jaquetões, havia, cuidadosamente empilhadas, dezenas de barras de chocolate. E nem era do amargo, o único que ele aceitava morder, relutante, pois dizia que prazeres dessa natureza predispunham corpo e alma a concessões mais perigosas. 

Chocolate ao leite, e do melhor!, arregalou-se a esposa, para em seguida regalar-se na lenta, lambuzada, sensual devoração de uma barra inteira, sentada em frente à poltrona onde ele jazia, não sem antes descalçar os sapatos e liberar os pés, aqueles pés que homem algum, marido ou vendedor, jamais tocara.

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