Gabriela Biló/Estadão
Gabriela Biló/Estadão

Conib chama de 'inaceitável' fala de Roberto Alvim e pede afastamento do secretário

Segundo a entidade, vídeo é 'um sinal assustador'; 'Uma pessoa com esse pensamento não pode comandar a cultura do nosso país'

Felipe Cordeiro, O Estado de S.Paulo

17 de janeiro de 2020 | 10h04
Atualizado 17 de janeiro de 2020 | 16h43

SÃO PAULO - A Confederação Israelita do Brasil (Conib) repudiou o vídeo em que o secretário da Cultura, Roberto Alvim, cita trechos de um discurso do ministro da Propaganda nazista, Joseph Goebbels, e pediu o afastamento imediato do cargo. Após confirmada a demissão, a entidade também  compartilhou no seu site a notícia da saída do secretário do governo Jair Bolsonaro.

Para a Conib, a fala do secretário é "inaceitável" e "é um sinal assustador" da visão de cultura dele. "Emular a visão do ministro da Propaganda nazista de Hitler, Joseph Goebbels, é um sinal assustador da sua visão de cultura, que deve ser combatida e contida", diz a nota.

A confederação lembrou que Goebbels foi um dos principais líderes do regime nazista e "empregou a propaganda e a cultura para deturpar corações e mentes dos alemães e dos aliados nazistas a ponto de cometerem o Holocausto". O nazismo foi responsável pelo extermínio de 6 milhões de judeus na Europa.

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Uma pessoa com esse pensamento não pode comandar a cultura do nosso país e deve ser afastado do cargo imediatamente
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Confederação Israelita do Brasil

A Conib lembrou ainda o papel do País na Segunda Guerra Mundial para pedir o afastamento de Alvim da Secretaria Especial da Cultura.

"O Brasil, que enviou bravos soldados para combater o nazismo em solo europeu, não merece isso", disse a entidade. "Uma pessoa com esse pensamento não pode comandar a cultura do nosso país e deve ser afastado do cargo imediatamente."

Vídeo

A fala de Alvim ocorreu em um vídeo para anunciar o Prêmio Nacional das Artes.

"A arte brasileira da próxima década será heroica e será nacional. Será dotada de grande capacidade de envolvimento emocional e será igualmente imperativa, posto que profundamente vinculada às aspirações urgentes de nosso povo, ou então não será nada", afirmou Alvim, no vídeo, ao som de uma ópera de Richard Wagner.

Assista abaixo ao vídeo:

O pronunciamento é uma referência a um discurso de Goebbels a diretores de teatro.

"A arte alemã da próxima década será heroica, será ferreamente romântica, será objetiva e livre de sentimentalismo, será nacional com grande páthos e igualmente imperativa e vinculante, ou então não será nada", disse Goebbels, de acordo com o livro Goebbels: a Biography, de Peter Longerich.

O texto lido por Alvim, em tom solene e pausado, é bem mais longo, com outros trechos claramente inspirados pela ideia copiada de Goebbels. A peça de Wagner escolhida pelo secretário é um trecho da ópera Lohengrin, que Hitler disse em sua autobiografia, Mein Kampf (Minha Luta), ter tido importância capital em sua vida.

Em sua longa fala, Alvim declarou ainda que a cultura sob Bolsonaro terá inspiração nacional, religiosa.

"Trata-se de um marco histórico nas artes brasileiras", disse o secretário. “Dois mil e vinte será o ano de uma virada histórica. Dois mil e vinte será o ano do renascimento da arte e da cultura do Brasil", encerrou.

'Fala de secretário ofende consciência democrática'

O Estado procurou outras entidades religiosas para repercutir a fala e a demissão do secretário da Cultura. Em nota, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) afirmou que "não se manifesta sobre este tipo de assunto". A Arquidiocese de São Paulo não respondeu até o momento. A igreja Universal também não se manifestou.

Coordenador executivo do Instituto de Defesa dos Direitos das Religiões Afro-brasileiras (Idafro), Hédio Silva Júnior afirma que a fala de Alvim "ofende a consciência democrática e ofende diretamente a comunidade judaica brasileira e do mundo todo".

"É preciso que a sociedade e os setores democráticos, comprometidos com a ideia de cidadania, deem conta do efeito deletério que esse tipo de discurso vai produzindo aos poucos, causando ruptura do tecido social", diz. "Nesse caso, a inspiração nazista pode ter sido de maneira caricata, tosca e infame, mas ela, a meu juízo, lamentavelmente está presente em boa parte da máquina publica, em especial do governo federal."

Para Silva Júnior, a demissão de Alvim era "o mínimo a ser feito". "Ele rompeu o verniz do governo, mas um olhar panorâmico vai dizer que há uma sucessão de atos do governo que, implícita e latentemente, tem o mesmo tipo de inspiração do secretário."/ COLABORARAM FELIPE RESK E PRISCILA MENGUE

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