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Conhecer gente nova

Quem precisa de 1 milhão de amigos? Você, provavelmente, precisaria de dez. Mas se contentaria com cinco ou seis

Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

09 de novembro de 2020 | 03h00

Eu achava esse negócio de conhecer gente nova meio supervalorizado. Entenda, depois dos 40, as casinhas do nosso “Jogo da Vida” já estão meio abarrotadas. Não existe muito espaço para acomodar novos entrantes. 

É como morar em uma kitchenette sem espaço para o fogão ou um sofá de três lugares. Para entrar alguém, é preciso que outra pessoa, educadamente, peça para sair.

É claustrofobia que chama?

Quem precisa de 1 milhão de amigos? Você, provavelmente, precisaria de dez. Mas se contentaria com cinco ou seis.

Não vale amigos que coabitam apenas nossas redes sociais. Honestamente, eles estão mais para action figures do que para “gente nova que você conheceu de fato”. 

Eu acredito em tudo isso. Mas...

A pandemia me roubou o direito de, simplesmente, ter preguiça de conhecer gente nova. Agora, não é mais uma opção, rabugice ou convicção. Em tempos de isolamento social, não posso mais me dar ao luxo de fechar a porta da minha kit. A porta não existe mais (espero que temporariamente). 

O valor de um clube exclusivo não está em seus membros e sócios, mas em todos aqueles que gostariam de participar e são, com certa crueldade, impedidos ou ignorados. 

Confesso, estou em abstinência de novas caras, do manjado balé das apresentações, das descobertas, surpresas e decepções. Quero que perguntem sobre meu signo, o que eu faço e em quem eu voto. Quero responder com sinceridade ou mentir deliberadamente. 

No início da pandemia, nossa esperança era “olhar mais para dentro de nós mesmos”. Ah, tá. Ok. Já olhei. Já olhamos. E não vou negar o tédio dessa endoscopia infinita. Não tem coaxar de coach que mude essa minha percepção. 

Quero poder olhar na cara (sem máscara) de gente nova. Abraçar gente nova. Adorar gente nova. Odiar gente nova. Brigar com gente nova. Cantar música ruim com gente nova. 

Agora, sinto que só a adição de novas pessoas podem fazer o roteiro da minha história andar. Os próximos capítulos precisam de uma certa flexibilização do meu conceito de “vida kitchenette”. Paciência.

Quero conhecer gente nova. Quero conhecer gente nova para, um pouco mais adiante, considerar essa coisa de conhecer gente nova um pouco supervalorizada. E fechar a minha portinha outra vez. 

 

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