Conheça nova geração de escritores - personagens da literatura brasileira

Clarah Averbuck tem cabelosvermelhos, fama de boa bebedora, é de Porto Alegre e vive nazona sul de São Paulo. Clarah nasceu em 1979 e atualizadiariamente seu blog - http://brazileirapreta.blogspot.com.Clarah é escritora, Clarah é personagem, Clarah, ainda que nãogoste, com Máquina de Pinball (Conrad, 78 págs., R$ 22),entrou para o time dos escritores-personagens da literaturabrasileira: juntou-se a gente como Marcelo Mirisola (O Azul doFilho Morto), Fernanda Young (O Efeito Urano), AndréTakeda (Clube dos Corações Solitários). Também se podeassociar a esse grupo os gaúchos Daniel Galera (DentesGuardados) e Daniel Pellizzari (Ovelhas Que Voam se Perdemno Céu), amigos pessoais de Clarah e colegas do siteCardosOnline (www.cardosonline.com.br/), hoje inativo, mas aindanavegável. Esses nomes estão no mesmo pacote não porque tenham omesmo nível literário, mas porque, numa frase de efeito, pode-sedizer que suas tatuagens são tão importantes quanto o queescrevem. Ou que suas vidas são tão interessantes quanto aliteratura que produzem (e aí o grau de interesse variabastante). De maneira mais sofisticada e precisa, isso significaque as figuras públicas que assumem jogam um papel fundamentalno que deles se lê e do que deles se espera. Isso não ocorre apenas como fenômeno de marketing -embora passe por aí: Fernanda Young afirma que não seconstrangeu em chamar a atenção de seus livros por meio de suaimagem; ela - em As Pessoas dos Livros -, Takeda e Clarahocupam toda a contracapa ou a capa de seus livros. Também éresultado de uma espécie de estilo "hiper-realista pop" quenão deixa escapar nenhum detalhe consumista. Takeda, o campeãodesse modo de escrever, por exemplo, tasca: "Giovanna bebe oresto de sua Coca-cola light" (grifos do repórter). Essa sensação também nasce da preferência pelo relato,pela primeira pessoa e pelo diminuto distanciamento entre oescritor e os personagens. Reclamando de "escritorespasteurizados e sem sentimento e com fórmulas que fedem adesinfetante", Camila, a narradora de Máquina de Pinball,afirma: "Quero sentir junto. Quero que seja verdade,autobiografia disfarçada de ficção." No seu blog, Clarahreafirmou, nesta semana, sua proximidade com Camila. Essa pode,assim, ser lida como uma frase que define uma geração, que nãoapenas quer viver intensamente, como quer parecer viverintensamente e, se possível, fazer livros que expressem eradicalizem essas experiências. Logo no começo de O Azul doFilho Morto, de Mirisola, informa seu personagem: "Antes dequalquer meleca sempre fui um escritor." Essa não é, no entanto, uma tendência unicamentebrasileira, registre-se. No circo midiático dos dias de hoje,também podem ser classificados de escritores-personagens nomescomo o francês Michel Houellebecq (Plataforma), que dá seuprenome a seus protagonistas, e o inglês Nick Hornby (AltaFidelidade). Hornby, matriz do que escreve Takeda, na verdade,praticamente conseguiu se livrar dessa pecha com seu maisrecente livro, Como Ser Legal: colocou uma mulher paranarrá-lo e pôde, de fato, imprimir uma voz que não tem como serconfundida com a sua. O escritor-personagem é, claro, um egóico. FernandaYoung, ao receber, neste ano, o prêmio da Associação Paulista deCríticos de Artes (APCA) pelo programa Os Normais, disse quejá estava na hora de ganhar uma estatueta pelo que escreve. Mirisola, ao ser entrevistado para esta reportagem,reclamou que não foi feita uma resenha para seu O Azul doFilho Morto, "um senhor livro" (a palavra senhor substituioutra que não será publicada). Mas não necessariamente concordamentre si: Mirisola afirma que Clarah, "ao contrário de FernandaYoung e de Patrícia Melo, é escritora". Clarah Averbuck diz que não está muito contente em tervirado personagem. "É meio chato, ficam falando do meu cabelo,da tatuagem; o que escrevo é muito mais importante." Pode atéser mais importante, "mas não faz a feira", como a própriaClarah emenda. Se há algo que a incomoda, é a comparação comFernanda Young. "Dizem que somos parecidas, porque somosmulheres, louquinhas, ela é mãe punk, pintamos o cabelo, usamostatuagem, somos jovens escritoras; para começar, ela não éjovem", diz. E completa: "Não acho nada da literatura dela",depois de se afirmar "uma escritora séria" (Fernanda, de 32anos, responde elencando os livros que já publicou, afirmandoque vai ser jovem para sempre, por conta do sobrenome, e dizendo sobre Clarah: "Coitadinha, o tempo também chegará paraela"). Para Marcelo Mirisola, que ficou com fama de"estranho" porque não tem computador, usa chinelos Rider,descreve em seus livros uma vida cheia de sexo e escatologia emorava em Santa Catarina quando publicou seu primeiro livro,Fátima Fez os Pés, não há muito problema em virarpersonagem. "Não posso me responsabilizar pela fantasia dosoutros; talvez isso ocorra porque estamos fazendo literatura emvez de rock´n´roll." No dia em que deu a entrevista, Clarah vivia noapartamento de um leitor. Estava sentada num sofá também doado.Umas semanas antes, "leiloara" um jantar com mais um fã eganhara pantufas de mais outro. Tudo antes de publicar o livro(agora, vive o drama de novo: o sujeito que emprestou oapartamento vai precisar dele dentro de um mês). São leitores deseu blog, seu endereço eletrônico, em que escreve uma espécie dediário e que, segundo ela, chega a ter mil acessos por dia - degente interessada em saber como Clarah, hoje com 23 anos, eCamila, seu "alterego", vivem. "Não consigo dormir semescrever; acho que é a única coisa que sei fazer direito." A Internet favorece o "jorro literário" de Clarah. Masesse jeito despojado, verborrágico e descuidado de escrever estáligado a uma história. Tanto ela quanto seus colegas de PortoAlegre quanto Mirisola são como que "filiados" não a umacorrente literária, mas a um projeto editorial: nos anos 1980, aBrasiliense publicou uma série de autores "marginais", dosbeats Jack Kerouac (Pé na Estrada) e William S. Burroughs(Junky) a nomes como Walter Benjamin (Haxixe) e PierPaolo Pasolini (Teorema). Dois nomes, no entanto, fizeram acabeça dessa turma: John Fante (especialmente o de Pergunte aoPó) e Charles Bukowski (Misto Quente). Clarah foiapresentada a eles pela mãe. Atualmente, Mirisola diz que Fantenão o impressionaria como o fez no fim daquela década - suainfluência mais forte atualmente, diz, é Georges Bataille (OAzul do Céu e Minha Mãe), também publicado pelaBrasiliense. Bataille, aliás, é citado num endereço eletrônicoda Livros do Mal, a editora gaúcha de Daniel Pellizzari e DanielGalera (que também têm textos disponíveis na Internet).

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