Conheça a história do musical que nasceu há meio século

'West Side Story' é um registro documental do nascimento das gangues racistas nas cidades dos EUA

Antonio Gonçalves Filho, de O Estado de S. Paulo,

04 de março de 2008 | 17h46

O musical West Side Story nasceu há meio século como uma história de dois amantes de crenças antagônicas, um católico e outro judeu, ambos moradores no lado leste de Manhattan. O projeto logo foi abandonado. Seria esquemático demais situar o musical na parte nobre da ilha. Nem o coreógrafo Jerome Robbins, que teve a idéia de adaptar Romeu e Julieta para a linguagem do musical americano, parecia convencido. Finalmente, ao ler uma reportagem no jornal Los Angeles Times sobre gangues rivais formadas por mexicanos e americanos, Arthur Laurents, autor da peça, logo imaginou que o conflito religioso da história original poderia ser transformado numa briga étnica. Não no elegante lado leste, mas no lado oeste de Manhattan, o mais miserável. Laurents conversou, então, com o compositor Leonard Bernstein, parceiro de Robbins no musical On the Town (1944). Coincidentemente, o maestro, um gay nada discreto habituado a rondas noturnas em bairros pobres de Manhattan, havia descoberto às margens do Rio Hudson, lá pela Rua 125, alguns garotos porto-riquenhos fazendo uma algazarra dos diabos: pulavam e brigavam entre os arcos de um prédio como se estivessem numa coreografia de Robbins. Assim nascia um dos números mais fascinantes (a seqüência do Rumble) de West Side Story, herdeiro dos musicais politizados de Brecht e Weill - sem o didatismo da dupla alemã. Estava decidido: seria um musical sobre gangues urbanas que tomam o lugar das famílias feudais de Shakespeare e lutam por afirmação étnica e pela defesa de seu território. Isso nos anos 1950, muito antes do hip-hop e dos gangsta rappers. No lugar dos Capuletos e Montecchios, os Jets, a gangue polimorfa de caucasianos, luta até a morte contra os Sharks, outra gangue formada por imigrantes porto-riquenhos. O cenário: a América de jovens deserdados, dispostos a tudo para pertencer a algum grupo social. Em West Side Story, o sonho americano de ascensão vira um pesadelo quando um dos garotos da primeira gangue, os Jets - ou seja, os "jatos", signos da América do futuro -, apaixonado pela irmã do líder porto-riquenho, mata por acidente um dos Sharks - os "tubarões", bichos que não evoluem há mais de 2 milhões de anos. Os sociólogos americanos cansaram de explicar a origem desse conflito: declínio da oferta de emprego aos imigrantes (especialmente os latinos) numa época de automação e medidas cautelares da Suprema Corte para manter negros, chicanos e nativos fora do páreo. Aprovando leis ambíguas nos anos 1950, que garantem igualdade aos cidadãos (desde que separados por raças), essa corte é ridicularizada na figura do policial Krupke, que ouve, dos garotos das duas gangues de West Side Story, mais palavrões do que suportam seus ouvidos. Tanto que Sondheim (também autor de Sweeney Todd, base do filme homônimo em cartaz) foi obrigado a mudar as letras da canção Gee, Officer Krupke, na adaptação para o cinema: nela, um garoto diz que seu pai é um bastardo, sua mãe uma "fdp" e sua irmã uma biscate. Conclusão: a canção foi banida da programação da BBC por mencionar abuso sexual e uso de drogas. Mais uma vez: isso em 1957. O pior de tudo é que nem Bernstein nem Sondheim exageravam. Quando Rita Moreno interpretou, no cinema, a cena em que Anita é acossada e quase currada pelos Jets, a atriz desabou a chorar ao lembrar que foi vítima de abuso sexual quando criança. Ela não perdoa seu algozes. Aconselha Maria, apaixonada pelo americano Tony, a procurar um bom rapaz porto-riquenho e se livrar daqueles "monstruosos" ianques que a acuaram na rua (na canção A Boy Like That). Perpetuam-se os estereótipos cultivados por ambos os lados. Fica claro que eles são transmitidos pelos pais das vítimas. Os Jets não só discriminam os Sharks porto-riquenhos, acusando-os de roubar seus empregos, como enunciam um discurso racista sobre a inferioridade latina, imitando o sotaque do antípoda. A própria Anita se encarrega de traçar um auto-retrato depreciativo dos porto-riquenhos, justificando que prefere a discriminação à miséria (na canção América). Algo mudou?

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