Confusões de uma família à deriva

Confusões de uma família à deriva

Cyrus tem ótimo elenco e mais uma dupla de irmãos diretores, os Duplass

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

05 de novembro de 2010 | 00h00

Irmãos diretores são cada vez mais frequentes na história do cinema mundial - os Taviani, Coen, Dardenne, Wachowski, Hughes. A eles vêm se somar agora os irmãos Jay e Mark Duplass, que asssinam Cyrus. O filme fez sensação em Sundance, em janeiro. Estreia hoje depois de passar na Mostra. Numa entrevista por e-mail, Mark Duplass fala sobre como é trabalhar em dupla com o irmão.

"Não sei por que é fácil para nós dois e difícil para outros, mas não consigo me imaginar dirigindo um filme sozinho, sem o Jay. As diferenças desaparecem em comparação com o quão difícil seria para cada um fazer um meio filme decente. O problema é sempre de ego. Quando se põe o ego de lado e se concentra toda a energia em fazer o melhor filme possível, as coisas ficam mais fáceis."

Quem viu o filme anterior dos dois, o independente Baghead, vai encontrar o mesmo tipo de personagens não convencionais. O que atrai os dois - os personagens ou a história? "Somos obcecados por pessoas. Se você prestar atenção em Cyrus, verá que a câmera fica muito tempo parada na cara das pessoas, em close-up. Ouvir as pessoas falando é uma coisa fascinante. A estranha e sutil forma como elas tratam de manipular umas às outras, para alcançar o que pretendem. É bonito e ao mesmo tempo divertido, hilário, ver a condição humana, em extremo close-up, na obtra de arte. Mas é claro que, para isso, é preciso ter uma história capaz de interessar ao público. Às pessoas."

Neste caso específico, os personagens são três desajustados. John C. Reilly faz um homem que nunca conseguiu encontrar a mulher de sua vida e agora que a encontra - Marisa Tomei -, ela tem um filho, Cyrus, que faz de tudo para acabar com o romance. Esses personagens se baseiam em figuras da vida real? Que tipo de pesquisa os diretores/roteiristas fizeram para dar-lhes vida, com os atores?

"São figuras de ficção, mas vou lhe dizer uma coisa - há muito de Jay e de mim em cada um desses personagens. Também somos pessoas à deriva, desesperadas, capazes de fazer não importa o quê para alcançarmos o que queremos. Sem brincadeira, é justamente ao empreender essa busca, do que queremos, que Jay e eu, podemos nos sentir confortáveis e entender Molly e Cyrus. Eles são tão trágicos e,. ao mesmo tempo, engraçados que nos permitem perceber o patetismo das pessoas, de nós mesmos, tentando superar os limites de nossas pequenas vidas miseráveis."

Embora os dois filmes sejam muito diferentes, é possível que o espectador, diante de Cyrus, experimente o mesmo estranhamento que lhe produziu Precious. Ambos são desengonçados, para dizer-se o mínimo. A comparação procede? "Uau! Nunca pensei nisso e, na verdade, Jay e eu não havíamos visto Precious. Quando terminamos nosso filme, Precious estava sendo lançado. A associação, se é possível, se faz no espectador."

Como sempre nos filmes dos irmãos Duplass, dado o seu compromisso com a humanidade das figuras que filmam, o elenco era fundamental. Uma nota de produção informa que eles nunca pensaram em astros e estrelas. A interrogação era outra - quem são nossos atores preferidos e como trazê-los para o filme? John C. Reilly foi uma escolha mais do que natural. "Quando o vemos pela primeira vez no filme ele parece o típico desleixado divorciado. Sentimos pena dele, mas o que mais gostamos no personagem, e isso só um ator como John pode passar, é que ele sabe que é um sujeito cheio de defeitos e que deu bons motivos para ser abandonado. É inteligente, mas isso não o impede de se livrar de entrar num monte de confusões."

Sobre Marisa Tomei, Mark Duplass diz que ela não incorpora a personagem cômica. "Marisa não tenta ser engraçada; ela incorpora a realidade, o que serve à personagem, mas possui uma graça natural que a torna divertida, a despeito de todo o substrato trágico." Mas a chave do filme é Jonah Hill, que faz Cyrus. "No começo do filme, mãe e filho têm um mundinho só deles, mas quando John (C. Reilly) entra na história ela começa a perceber que não se trata de uma situação exatamente normal. Estávamos interessados em explorar tanto o lado positivo quanto o negativo da situação. Jonah era essencial para isso. Sem o ator certo, o filme não teria funcionado."

Comentando as cenas entre John C. Reilly e Jonah Hill, Mark Duplass recorre a uma metáfora esportiva. "É como ver o sétimo jogo de beisebol da World Series com os melhores lançadores em campo. Numa cena, eles se sentam juntos e sabem que, se não mostrarem o melhor que têm, ficarão parecendo dois idiotas. Com John e Jonah, não há possibilidade de que isso ocorra. Ou, se parecerem idiotas, será para melhor servir aos papeis."

CYRUS

Direção: Mark Duplass e Jay Duplass. Gênero: Comédia (EUA/2010, 92 minutos). Censura: 14 anos.

Trailer. Veja cenas do filme Cyrus em nome

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