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Confusão

Com poucos dias de existência, o governo não poderia mesmo funcionar com a eficiência desejável, e os equívocos foram inevitáveis

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S. Paulo

10 de janeiro de 2019 | 02h00

A falha de comunicação e o desencontro de informações que, há uma semana, deram a impressão de que o governo mal começara e já se perdera, foram perfeitamente compreensíveis. Com poucos dias de existência, o governo não poderia mesmo funcionar com a eficiência desejável, e os equívocos foram inevitáveis. De qualquer maneira, o novo presidente convocou uma reunião de emergência com seus ministros para garantir que novos equívocos não aconteçam. Dado o seu caráter de emergência, a reunião custou um pouco a começar. Parte do problema foi o horário marcado: os ministros militares entenderam que 19h queria dizer 7 da noite, mas os civis ficaram confusos. O próprio Bolsonaro se atrasou para a reunião, pois ainda não decorou o caminho para seu escritório.

Outro problema foi a identificação dos ministros, já que havia pouca intimidade entre eles. Alguém teve a ideia de substituir os crachás oficiais por crachás com apelidos, para dar um tom de informalidade ao evento, desde que se evitasse apelidos constrangedores (“Fofo”, “Cabeça”) ou exóticos (“Onix”). Outra ideia com o mesmo fim, o de aproximar os ministros e criar um espírito de equipe, foi determinar que os ministros masculinos vestissem azul e as ministras femininas vestissem rosa. A ideia foi abandonada quando descobriram que no ministério só havia uma mulher, que foi de amarelo.

A primeira ordem do dia foi a maneira correta de se dizer que o presidente da República se equivocou. Deve-se evitar assertivas diretas (“Equivocou-se, pronto”), ou, de preferência, esquecer o “equivocou-se” e substituí-lo por “enganou-se”, “distraiu-se”, etc. E de modo algum acompanhar qualquer assertiva sobre um equívoco presidencial com uma gargalhada. 

– Olha só isso daí – disse o presidente, indicando a pilha de papéis à sua frente. – Como é que eu vou saber o que assinar e o que não assinar? E olhem isso! Que língua é essa? Isso pra mim é grego.

– É um memorando do ministro de Relações Exteriores, em latim, presidente. Recomendando que a linguagem diplomática brasileira passe a ser o aramaico, lido de trás pra diante.

– E pensar que eu quis ser presidente...

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