Conflitos existenciais marcam estréias nos teatros

Quem somos? Para onde vamos? Os conflitos existenciais do homem contemporâneo, que já não encontra respostas em Deus para suas crises, são o tema de duas estréias teatrais deste fim de semana: Plano B, com direção de Beth Lopes no Centro Cultural São Paulo, e Deus e Outros Eus, primeiro texto de Tereza Monteiro, dirigido por Inês Aranha de Carvalho no teatro Ágora.A ênfase nas questões existenciais dá lugar ao humor no espetáculo Scapino, concepção de Cacá Rosset para a comédia de Molière, que reestréia no sábado no Teatro Maria Della Costa. E o Teatro Oficina volta a apresentar a ótima encenação de Boca de Ouro, tragédia de Nélson Rodrigues dirigida por Zé Celso, que também integra o elenco do espetáculo.Não há personagens psicologizados na peça Deus e Outros Eus. "Tereza escreveu num único fluxo um texto filosófico existencial, muito poético, numa linguagem límpida e precisa, que aborda o sentido da vida", explica Inês, que aceitou o convite para a direção motivada pela qualidade do texto da dramaturga estreante. "Além disso, um autor teatral só se aprimora ao ver sua peça no palco."Inês e o elenco leram textos de alguns filósofos, entre eles Hume, Sartre, Spinoza, e consultaram ainda psicanalistas lacanianos sobre o rito de passagem. "Descobrimos ressonâncias no texto de Tereza", diz Inês. Mas, apesar do tema aparentemente complexo, a diretora acredita que o espetáculo vá tocar a qualquer tipo de espectador. "Afinal, quem não já passou por uma noite de insônia na qual questionou o sentido de sua existência?"No palco, Renata Artigas vive a personagem central, dividida entre duas vozes interiores conflitantes, encarnadas em cena por Tereza, a autora, e Otávio Filho. A peça é curta - apenas 45 minutos - o suficiente para a personagem sair da crise amadurecida. "Mas não há respostas no palco, só perguntas."Depois de uma longa troca de idéias com a cenógrafa Abi Cohen, Inês conseguiu concretizar a idéia do "vazio" no palco. O elenco atua dentro de uma espécie de piscina rasa, cercada por tecidos cuja textura reforça a idéia de um espaço abstrato, o interior dos personagens. "Eu não queria o palco vazio, mas uma cenografia que reproduzisse a idéia de alguém que pára o mundo num momento de crise, ou pelo menos sente dessa forma."Sentido da vida - Poesia e metafísica também são fontes de inspiração do espetáculo Plano B, dirigido por Beth Lopes. Os pontos de contato com Deus e Outros Eus vão muito além da direção feminina. Como no espetáculo dirigido por Inês, em Plano B não há personagens psicologizados, mas vozes questionando o sentido da vida. Desta vez o ponto do partida para o texto está na poesia de Fernando Pessoa, mais especificamente no poema dramático O Marinheiro."Fernando Pessoa escreveu O Marinheiro - poema no qual três mulheres velam o corpo de uma quarta - como antiteatro um teatro estático", comenta Beth. "Nós utilizamos o poema como um pretexto, mesclando trechos textos de outros autores, outras visões da morte." Convidada pela Compahia Linhas Aéreas, um grupo cuja linguagem pode ser identificada como teatro físico Beth desconstrói o poema e inverte a estática sugerida pelo autor."Era uma idéia revolucionária na época e nós trabalhamos com a suspensão das atrizes, com o espaço aéreo, o que dá um resultado muito interessante", diz. "Ousamos dizer que Fernando Pessoa aprovaria", brinca. Em cena, três atrizes encarnam essas vozes - não se sabe bem de vivos ou mortos - que discutem o significado da vida diante de um cadáver. No elenco, as atrizes Erica Stoppel, Isabela Graef e Ziza Brisola.Sobre um cadáver nada prosaico gira a história de Boca de Ouro, que o teatro Oficina volta a apresentar a partir de amanhã. O título da peça é também o apelido do personagem central, um banqueiro do jogo do bicho (Marcelo Drummond), o todo-poderoso do bairro de Madureira, no Rio, que trocou os seus dentes naturais por uma dentadura de ouro.Abandonado pela mãe numa pia de gafieira, o Boca acredita piamente que não vai morrer enquanto não acabar de construir o seu caixão de ouro. "Eu não seria ninguém sem as minhas obsessões", dizia Nélson Rodrigues. Seus personagens, seja Zulmira de A Falecida, ou Geni, de Toda a Nudez Será Castigada, obcecada pela idéia de que vai morrer com um câncer no seio, assim como o Boca, buscam a transcendência pela morte, única forma de superar uma existência miserável.A concepção de Zé Celso valoriza na dose certa o humor dessa tragédia carioca. A peça começa com a notícia da morte do bicheiro e, a partir daí, sua vida é recontada em três versões diferentes, variando conforme o estado de espírito de sua ex-amante. O diretor, que na primeira temporada havia interpretado o dentista, volta agora como intérprete do negro que revela ao Boca a sua origem. Negro? "Não conseguimos um ator negro para o papel." Como solução, Zé Celso, devidamente paramentado, vai encarnar o negro como se fosse Omolum, entidade da mitologia africana.Para quem quer descontração e gargalhadas, a pedida é a peça Scapino, versão do diretor Cacá Rosset para a farsa escrita por Molière dois anos antes de morrer: As Malandragens de Scapino. Para compor o elenco, o irreverente diretor convocou, pela imprensa, tipos esquisitos para testes de ator. Os aprovados podem ser vistos no espetáculo que conta a história de um criado que apronta mil artimanhas para passar a perna nos patrões. E acaba sempre se dando mal.Boca de Ouro. Duração: 2h10. Sexta e sábado, às 21 horas; domingo, às 18 horas. R$ 15,00 (sexta) e R$ 20,00. Teatro Oficina. Rua Jaceguai, 520, tel. 3106-2818. Até 10/9Deus e os Outros Eus. Duração: 45 minutos. De quinta a sábado, às 21 horas; domingo, às 18 horas. R$ 10,00. Ágora. Rua Rui Barbosa, 672, tel. 284-0290. Até 13/8Plano B. Duração: 1h10. Sexta e sábado, às 21h30; domingo, às 20h30. R$ 12,00. Centro Cultural São Paulo. Rua Vergueiro, 1.000 tel. 3277-3611. Até 3/9Scapino. Duração: 1h50. De quinta a sábado, às 21 horas; domingo, às 19 horas. R$ 10,00 (quinta); R$ 20,00 (sexta e domingo) e R$ 25,00 (sábado). Teatro Maria Della Costa. Rua Paim, 72, tel. 256-9115. Até 1/10.

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