Conflito, choque e fracasso

Tema da corrupção conduz a trama de romance do nigeriano Chinua Achebe

Anne Begenat-Neuschäfer, O Estado de S.Paulo

16 Fevereiro 2013 | 02h09

O nigeriano Chinua Achebe, nascido em 1930, como Albert Chinualumogu Achebe, em Ogidi, iniciou a sua primeira obra, o romance, Things Fall Apart, em 1955. Com esse livro de estreia, publicado em 1958, Achebe firmou-se como o fundador da moderna literatura africana e escritor eminente nas letras anglófonas. Foi ele que, pioneiramente, elevou a fala originária da África à literatura. Fez isso introduzindo, por meio de seu estilo particular, expressões da memória oral na escrita contemporânea. Usando antigos provérbios e citações bíblicas, Achebe montou narrativas dotadas de uma nova e às vezes chocante significação.

Em Things Fall Apart, Achebe conta o fracasso existencial do protagonista Okonkwo, um homem que não consegue se adaptar às mudanças sociais e se quebra entre as exigências da tradição africana e as normas ocidentais. Neste A Paz Dura Pouco (No Longer At Ease), publicado pela primeira vez em inglês em 1960, ele apresenta uma continuação da história. O neto de Okonkwo, Obi, é um jovem que estudou na Inglaterra graças ao esforço de toda a sua aldeia, de etnia ibo. De volta à Nigéria como funcionário do Estado, ele passa a enfrentar dificuldades. A exemplo de seu avô, Obi é apresentado como um ser humano alquebrado, um indivíduo que não resistiu às tensões de uma educação exigente, mas abstrata; que inculcou os valores ocidentais sem levar em conta o contexto africano, as necessidades da vida e as dependências de sua comunidade pré-industrial.

O grande tema do romance é a corrupção: a primeira cena do livro mostra Obi Okonkwo diante de um tribunal, no qual é acusado de suborno. A partir daí, o que se lê é a sucessão de eventos que o levaram à condição de réu.

Para o autor, importa a reabilitação das sociedades africanas pré-coloniais: manter viva a memória cotidiana do povo ibo. Ao não idealizar nunca a vida na comunidade da aldeia, Achebe se arrisca a levar o leitor estrangeiro a um mal-entendido. Quer fazer compreender que os africanos dependem uns dos outros. "Não posso contar a história de um sem integrar a vida dos outros", observaria ele no romance Anthills of the Savannah, de 1987.

Com esta tradução de A Paz Dura Pouco, o leitor brasileiro pode seguir de perto o estilo original do ficcionista nigeriano, que trata dos conflitos essenciais em um mundo de migrações compulsórias e desenraizamentos incontornáveis. Essa é a realidade de muitos povos de hoje - e a literatura de Chinua Achebe quer retratá-la.

Suas narrativas têm sempre como referência a História a partir da história de seu povo - que ele projeta como espelho de uma situação mais geral.

Se Achebe, em Things Fall Apart, ilustrava o perigo de um endurecimento sucessivo, de uma "fundamentalização" da própria cultura na hora de reagir a um contato forçado, sinalizando que tal "fundamentalização" dos próprios valores culturais conduziria à desintegração da sociedade originária, em A Paz Dura Pouco ele demonstra que esse desarranjo social se deve a uma mediação errônea de valores antagonistas.

Na descrição dos choques culturais, invariavelmente trágicos, sofridos pelos indivíduos de cada comunidade, Achebe acabou se revelando um visionário.

Ele continua a postular, nos seus textos, a educação global e uma mudança contínua nos dois lados - não como dinâmica vazia, mas sim apoiada numa memória viva contundente. Para Achebe, não existe, ou melhor, não tem futuro um conceito de identidade exclusivo, único. A identidade, acredita ele, deve ser plural para que se mantenha a paz no mundo globalizado, no qual os países, os continentes e as línguas se avizinham cada vez mais uns dos outros.

A PAZ DURA POUCO

Autor: Chinua Achebe

Tradução: Rubens Figueiredo

Editora: Companhia das Letras

(200 págs., R$ 38)

* ANNE BEGENAT NEUSCHÄFER,  DA UNIVERSIDADE RWTH AACHEN,  ALEMANHA,  É PROFESSORA VISITANTE NO CENTRO DE ESTUDOS AFRICANOS DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

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