Confissões e disputas motivam bate-papos

Conversas entre escritores fogem do trivial e buscam aprofundar questões

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

01 de junho de 2010 | 00h00

Ateliê. Francis Bacon, diante de seu estúdio em Londres: pintor fala sobre infância, álcool e influências como Picasso  

 

 

 

Luis Fernando Verissimo comenta a morte do pai, Erico; o pintor Francis Bacon relembra as crises de asma que sofria na infância; já o escritor americano Paul Auster jura policiar a emoção de seus textos a fim de a linguagem chegar mais limpa ao leitor ? confissões, ainda que inocentes, surgem apenas quando o clima é favorável, o interlocutor porta-se como cúmplice, o respeito impera. É justamente esse momento especial que marca uma série de livros que chegam agora ao mercado, todos com uma característica comum: a de eternizar conversas previamente preparadas e nas quais assuntos são aprofundados.

É o caso, por exemplo, de Conversa sobre o Tempo (Agir), fruto do encontro entre Luis Fernando Verissimo e Zuenir Ventura durante cinco dias, no ano passado. Com a mediação do jornalista Arthur Dapieve, a dupla se isolou em um sítio no interior do Rio de Janeiro no ano passado para falar sobre amizade, morte, política, descobertas da adolescência e choque de gerações. "Tanto Verissimo quanto Zuenir logo perceberam que, pelos temas propostos, as sessões constituiriam uma variante literária da psicanálise que nenhum dos dois nunca fez", observa Dapieve, no prefácio.

De fato, apesar das brincadeiras (Verissimo diz que tem, há anos, só 16 fios de cabelo), temas delicados não são evitados. Como a morte de entes queridos. Zuenir diz que, mesmo preparado por conta da idade do pai (97 anos), ficou chocado quando foi informado de seu falecimento. E Verissimo ainda guarda com dor e nitidez os momentos finais de Erico Verissimo. O autor de O Tempo e o Vento acabara de telefonar para o amigo Jorge Amado quando sentiu uma tontura. "Aí ele se sentou em uma cadeira e eu vi os olhos dele ficarem vazios. O olhar dele ficou vazio. Ele tinha morrido."

As relações familiares, no entanto, nem sempre são amistosas. O pintor Francis Bacon (1909-1992), cujas telas são um retrato do pesadelo, não esconde um desprezo que beira o ódio pelos pais. A história é contada no pequeno mas maravilhoso Conversas com Francis Bacon (Zahar Editores), uma série de conversas comandadas pelo jornalista e crítico de arte Franck Maubert que, depois de conquistar a confiança de Bacon, conseguiu arrancar declarações reveladoras em seu estúdio.

"A fotografia me dá uma ajuda, me serve de apoio, me suscita e provoca imagens", conta o pintor, em meio ao lixo espalhado em seu local de trabalho. "A fotografia me permite arrancar, depois eu risco, subtraio, apago. No fim, não resta mais muita coisa da fotografia original." Em seguida, ele revela a chave sobre uma obra que expõe como nenhuma outra a miséria e o desespero do homem moderno: "A fotografia me liberta da necessidade de exatidão."

Inconsciente. A atividade profissional, aliás, é constantemente tratada pelos artistas. Em Conversas Sobre Escritores (Arte & Letra), reunião de 21 bate-papos entre autores, é justamente a troca de informações sobre o fazer literário que mais parece interessá-los. Paul Auster, por exemplo, confessa a tendência de se imaginar como um escritor altamente emocional. "Tudo vem dos sentimentos mais profundos, dos sonhos, do inconsciente", diz ele para Jonathan Lethem. "Apesar disso, nas minhas narrativas, estou sempre me empenhando em ser claro. Para que, de forma ideal, a escrita se torne tão transparente que o leitor esqueça que o meio de comunicação é a linguagem."

Felizmente, a divergência também alimenta os encontros. O Cristianismo É Bom Para o Mundo? (Garimpo Editorial) reúne o apologista cristão Douglas Wilson e o "neoateísta" Christopher Hitchens em um estimulante debate ? o livro, aliás, é dividido em rounds, como em uma luta de boxe, e não em capítulos.

Em meio a brilhantes tiradas (Hitchens afirma que a vigilância sem fim de Deus impõe um Big Brother celestial insuportável para os homens), o livro é um embate semelhante às mesas-redondas de futebol: todos têm razão e nada é conclusivo.

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