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Confissões de Giannetti em registro ficcional

Economista lança A Ilusão da Alma, sobre mestre doente

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

26 de agosto de 2010 | 00h00

 

Frustrar a expectativa do leitor faz parte de qualquer relato autobiográfico. Afinal, como admite o professor Eduardo Giannetti em seu primeiro livro ficcional, A Ilusão da Alma - Biografia de Uma Ideia Fixa, a confissão tem um poder curativo e purificador, mas só para quem acredita nela. Assim, a exemplo do irlandês Laurence Sterne, Giannetti opta pela dissolução do drama pessoal num jogo intertextual - inconclusivo, mas filosoficamente rico. É uma estratégia lícita, embora deixe o leitor à deriva. Como contar a história de um professor solitário que se torna ainda mais isolado após a retirada de um tumor cerebral? Como descrever a tragédia da perda da audição e da paixão torturante pelo conhecimento advinda desse tumor? Em que ponto começa a ficção e acaba o relato pessoal? A resposta a essa última pergunta está na terceira e última parte do livro: é de um cruzamento híbrido entre biografia, ensaio filosófico e investigação científica que nasce a consciência de que autor e leitor padecem da mesma doença da alma: ambos esperam uma resposta que jamais virá.

A doença que o narrador da história tem é a nostalgia de uma doença: a extração de seu tumor cerebral produziu nele um "tumor metafísico". O professor se torna um fisicalista, converte-se, enfim, a um sistema que submete o universo exclusivamente às leis da física. Esse narrador sem nome, que o leitor confunde com o autor, tem uma história em muitos pontos semelhante à trajetória de Giannetti: economista respeitado e escritor premiado (duas vezes com o Jabuti, por Vícios Privados, Benefícios Públicos? e As Partes & o Todo), o escritor cria um professor mineiro aposentado pela doença que, graças à lesão no aparelho auditivo, busca na leitura e na escrita uma compensação.

Acontece que, ao apurar os outros sentidos, descobre sua obsessão pelo conhecimento. Essa o conduzirá à segunda parte do livro, Libido Sciendi, ou seja, à "paixão pelo saber", tão dolorosa quanto a tara de um pedófilo - exemplo, aliás, evocado quando o narrador cita o caso de um professor primário americano de meia-idade que passa a visitar sites de pornografia infantil por causa de um tumor no cérebro que altera seu comportamento.

A tarefa a que se impõe o narrador é também a que se impôs Machado de Assis e, antes dele, Laurence Sterne, ambos citados logo às primeiras páginas como autores que se dedicaram a "devassar a arquitetura da alma". Giannetti, que anteriormente se rendera à fórmula dos diálogos platônicos para investigar o hedonismo no mundo tecnológico (em Felicidade: Diálogos sobre o Bem-Estar na Civilização), agora recorre ao exemplo pessoal de Sócrates para examinar o abismo entre mente e cérebro, ancorado nas últimas descobertas da neurociência. Por intermédio de Machado, Giannetti chega a Demócrito e ao atomismo, fazendo seu professor mineiro - como ele, que nasceu em Belo Horizonte há 53 anos - um seguidor do fisicalismo, mesmo à custa de imolar a alma num sacrifício ritual pela ciência. Sócrates, ao menos, estava "subordinado a uma finalidade ética", segundo o autor. Fez o que fez pela elevação moral de seus semelhantes.

Já o professor de A Ilusão da Alma, um monomaníaco regado a álcool, não merece o mesmo crédito. Mentalmente perturbado, ouve Dio Come Ti Amo antes de ficar surdo após a extração do tumor - e ouvir Gigliola Cinquetti é, de fato, um sintoma de lesão cerebral. Giannetti tem humor. Mostra que Gigliola, por questões estéticas, perturba tanto como os argumentos dos fisicalistas do século 18 que provocavam a ira de religiosos. Não escapa ao autor a consciência de que a neurociência salvou seu personagem de um tumor físico, mas não de um mal maior: um tumor metafísico incurável, que priva suas vítimas de existência real.

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