Confira o balanço do 17.º Festival de Teatro de Curitiba

Entre as 200 peças do Fringe os destaques ficam com produções de São Paulo, Bahia e Paraíba

Beth Néspoli, de O Estado de S. Paulo,

31 de março de 2008 | 16h36

Duas ótimas montagens paulistanas encerraram a programação da mostra oficial do 17º Festival de Teatro de Curitiba: O Natimorto, adaptação e direção de Mário Bortolotto para o livro homônimo de Lourenço Mutarelli, e Salmo 91, adaptação de Dib Carneiro Neto para o livro Estação Carandiru, de Drauzio Varella, espetáculo vencedor do Prêmio Shell nas categorias autor e ator, para Rodolfo Vaz. Salmo 91 foi uma das produções da mostra oficial que realizou sessão extra devido à intensa procura por ingressos.  Veja também:Fotos do Festival de Teatro de Curitiba   Outra adaptação literária provocou elogios e aplausos unânimes na mostra oficial: Aqueles Dois. Baseada em conto homônimo do escritor Caio Fernando de Abreu, essa produção mineira, com texto e direção assinados por cinco atores do elenco, esteve entre as boas surpresas da programação principal e, a julgar pela repercussão, encantou a todos que a viram. Farsa, reunião de comédias curtas de Cervantes, Molière, Chekhov e Martins Pena, também ganhou sessão extra e provou que entretenimento leve pode ser muito bom. Nicette Bruno e Paulo Goulart também tiveram a esperada recepção com O Homem Inesperado que atraiu numeroso público aos 2,2 mil lugares do Guaíra. A Gaivota (Alguns Rascunhos), criação do grupo Piollin, da Paraíba, ainda que tenha dividido opiniões, é espetáculo de construção rigorosa e inteligente, que merece ser visto pela riqueza e delicada ousadia no diálogo que estabelece com o original de Chekhov. Mostra paralela Se havia expectativas positivas no Fringe, a mostra paralela para a qual não existe curadoria, uma delas girava em torno de Bolacha Maria, por ser criação da Cia. Armadilha, a mesma que ano passado havia se destacado por Os Leões. Seria um equívoco cobrar um espetáculo de igual brilho. Se não chega a atingir o mesmo patamar de união perfeita entre texto, encenação e interpretações, Bolacha Maria tem temática mais juvenil e vibrante, na forma como explora conflitos cotidianos de convivência e até as dificuldades de quem se lança na criação teatral. Permanece a linha de interpretação rara de ser alcançada: a simplicidade que é fruto de criação minuciosamente trabalhada e uma aparente naturalidade em cenas bem marcadas. Pelo visto, é mesmo marca da diretora Nadja Maira, e do grupo - colocar em cena elementos cenográficos utilizados com tal precisão que tudo resulta limpo e significativo.  A mineira Rita Clemente, que levou ao Fringe como atriz sua montagem de Dias Felizes, também foi responsável pela direção de outro destaque da mostra paralela, Rubros: Vestido - Bandeira - Batom, que tem texto de Adélia Nicolette e duas excelentes atrizes no elenco: Ana Regis e Patrícia Reis. Rara é a abordagem de Nicolette sobre o universo feminino, que escapa ao senso comum muito presente em comédias de gênero, de que mulher se une para falar mal de homem, cirurgia plástica, envelhecimento. Nada disso está em foco nessa peça, nem mesmo acusações mútuas de traição, revelações a partir do não falado ou outros clichês.  O texto escapa dessa estrutura ao flagrar mais um dia na relação entre duas amigas dessas que o conhecimento de longa data e o afeto sólido permitem a conversa franca e atritos profundos, sem o temor do rompimento. O que os diálogos trazem à tona, mais que conflitos de duas pessoas, são inquietações de toda uma geração de mulheres que, ao menos no Ocidente, saltaram barreiras seculares de comportamento, sonharam um mundo melhor e sofreram as frustrações de quem ambicionou muito, conquistou bastante, mas esbarrou em limites internos e externos. Tudo explorado a partir de um drama humano e comovente. Tomara que Rubros possa fazer temporadas em muitas cidades. Premiado em concursos de dramaturgia, o dramaturgo Marcos Barbosa era o nome que recomendava assistir ao espetáculo Avental Todo Sujo de Ovo, de sua autoria, encenado pelo grupo Bastidores, de Salvador. Antes de mais nada o texto é muito bem defendido pelos intérpretes Eva Kosalska, Christiane Veigga - é um primor a forma como essas duas atrizes dominam os tempos teatrais na cena inicial da conversa de comadres -, Lino Costa e Léo Passos, elenco que atua sob direção de Fábio Costa.  Fosse um outro autor ou outros criadores e a trama que envolve o rapaz que volta para casa como travesti, depois de uma ausência de 19 anos, cairia no humor rasteiro ou no dramalhão. Nas mãos desses artistas, o tema é explorado sem trivialidades, na dimensão da dor que acarreta, com doses de lirismo e humor (amargo) na medida certa. Pena que a platéia estivesse vazia. Em meio a tanta oferta - eram mais de 200 espetáculos no Fringe - nem sempre o público descobre a tempo os melhores. Em sua avaliação desta 17.ª edição, o diretor do festival, Leandro Knopfholz, adiantou que deverá estender as apresentações das peças do Fringe no próximo ano, para que a chamada propaganda boca-a-boca possa funcionar.    A repórter viajou a convite da organização do festival

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.