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Confira entrevista com Álvaro Mutis publicada no Caderno 2 de 29 de janeiro de 2006

Amante de bebidas e história antiga

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

24 Setembro 2013 | 08h20

Na dedicatória de seu romance O General em Seu Labirinto, Gabriel García Márquez escreveu uma frase que despertou numerosas especulações: "Para Álvaro Mutis, que me ofereceu a ideia de escrever este livro." Nos agradecimentos, o colombiano vencedor do prêmio Nobel chama atenção para um relato do amigo, O Último Rosto, que, apesar de puramente ficcional, serviu como fonte histórica para seu romance.  Não se trata de um elogio passageiro - apesar de reverenciado no mundo literário, Gabo sempre insistiu nas qualidades da prosa e da poesia do amigo, também colombiano. "Basta ler apenas uma página de qualquer um de seus livros para compreender tudo: a obra completa de Álvaro Mutis, assim como sua própria vida, são as de um vidente que sabe a ciência certa para encontrar o paraíso perdido."

Aos 82 anos, Mutis é, de fato, uma figura solitária nas letras em língua espanhola - apesar de amigo de nomes tão reluzentes como Octávio Paz e o próprio García Márquez, ele assumiu um atitude singular diante de seus contemporâneos, preferindo mais ajudá-los e admirá-los na divulgação de sua obra que expor a sua própria.  Mas, basta a leitura de algum de seus livros para se concordar com Gabo para quem Mutis é "um dos maiores escritores de nossa época".  E a chance é oferecida agora pela editora Record, que promete para o início de fevereiro o lançamento de A Neve do Almirante.

Trata-se dos diários de Maqroll, o Gaveiro (marinheiro que, do alto da gávea, observa o horizonte, a vinda de barcos, recifes, ou qualquer outro obstáculo na rota de um navio), além de notas e relatos organizados por um certo biógrafo.  O tal "organizador" do livro informa, no prefácio, como descobriu, dentro de um volume antigo, o diário de bordo de Maqroll em sua viagem pelo Rio Xurandó, através da Amazônia, em direção às cordilheiras.

Engana-se, porém, quem esperar apenas por uma narrativa recheada de aventuras - marinheiro de acontecimentos sem glória, personagem de batalhas sem vencedor aparente, Maqroll viaja, na verdade, pela paisagem humana.  Sua maior aventura é a mesma de qualquer cidadão: a vida. "Só que, à diferença de alguns, Maqroll sabe disso", escreveu o autor e tradutor Eric Nepomuceno no prefácio da primeira versão de A Neve do Almirante lançada em português, em 1990, pela Companhia das Letras. "Maqroll não se entusiasma, não se decepciona: contempla, medita, vive com calma e assombro, com a obstinada fé dos garimpeiros."

Uma possível explicação para essa prosa empapada de poesia está no fato de os primeiros livros de Mutis serem de poemas - só a partir de 1960 é que começou a publicar também textos narrativos.  Engana-se novamente quem acreditar que o escritor alterna trabalhos em prosa e poesia.  Sua veia lírica é que bombeia a inspiração, engrandecendo a prosa com uma força misteriosa, tornando esbelta cada frase.

Escrito em 1986, A Neve do Almirante é, na realidade, uma ampliação do poema do mesmo nome incluído no livro Caravansary (1981). "Maqroll apareceu pela primeira vez em La Balanza, primeiro volume de poesias que publiquei, em 1948", contou Mutis ao Estado, em entrevista realizada por telefone desde a Cidade do México, onde o escritor vive em exílio voluntário desde 1960.

"Maqroll tem estado presente sempre, mesmo que tenha sofrido algumas mudanças em minha poesia e, depois, nos romances.  Na poesia, ele surge se não como um símbolo, ao menos como pretexto para certas coisas.  Já nos romances, eu lhe dou um passado e um presente, e ainda crio situações abertas, que continuam nos volumes seguintes."

A vida errante é o tema central da obra de Mutis.  Em suas aventuras, Maqroll (já obviamente apontado como alter ego do escritor) navega sem rumo, não para descobrir o mundo, que julga já suficientemente desvendado, mas para conhecer a si mesmo.

"No livro, o capitão do velho barco em que Maqroll embarca diz que os portos que ele busca não existem.  Maqroll sabe que é verdade, mas não se importa e segue seu caminho, ciente de que as descobertas virão."

Álvaro Mutis conhece bem os países latinos por conta dos inúmeros afazeres que teve ao longo da vida e à margem da carreira literária: foi locutor de rádio, chefe de relações públicas e distribuidor de filmes da 20th Century Fox na América Latina, empregado de uma companhia de seguros, da Columbia Pictures e da Esso.  Assim, durante 23 anos, viajava até três vezes por ano ao Brasil, ritual que lhe permitiu aprofundar sua paixão pela literatura nacional e, de quebra, aprender a falar em português. "Hoje, leio bem mas não me arrisco a falar.  Só depois de dois uisquinhos é que falo português bonitinho", brincou ele ao conversar com o Estado.

Seu notório bom humor explica, em parte, o imenso carinho dedicado por diversos escritores.  Mutis, na verdade, é uma grande figura.  Fã incondicional de história antiga (especialmente determinados períodos como o império bizantino, o século 18, a formação dos Estados europeus e a monarquia espanhola), ele cultiva hábitos e pensamentos que fazem a alegria de seus pares.  Tornou-se famoso, por exemplo, o texto que escreveu para a revista humorística mexicana S.nob, em que faz uma crítica à prática do esporte - para Mutis, um espetáculo que apenas contribui para o envelhecimento das maiorias.

Amante de boas bebidas, Mutis desenvolveu seis curiosas regras para a prática, em que determina: jamais beba sozinho, antes das 13h30, com desconhecidos, por conta de problemas graves, não se sirva de bebidas desconhecidas, e, principalmente, evite se embriagar.

A atividade de escritor só foi possível quando encerrou definitivamente seu ciclo de empregos. "Mas, quando saí, nunca pensei que começaria a escrever",  conta. "Não é assim minha relação com a escrita, uma atividade natural." Atividade que lhe rendeu prêmios internacionais da importância do Cervantes, Príncipe de Astúrias e o Médicis.

O senhor já disse, em outras entrevistas, que Maqroll é tudo o que desejou ser mas nunca foi.  Como seria isso?

É verdade, eu disse isso inúmeras vezes.  Tudo o que sonhei em ser, quando jovem ou quando criança, e que não consegui realizar, eu projetei nas histórias de Maqroll.  Ele fez algumas viagens e teve algumas atitudes que eu gostaria muito de ter feito mas nunca realizei porque não tive nem sua força nem sua independência de espírito.  De todas as maneiras, eu garanto que Maqroll não é uma sombra da minha persona, nem uma cópia.  Apenas uma criação.

É curioso pois até Octávio Paz disse que Maqroll é a "consciência" do poeta Mutis.

Ele dizia mesmo.  Mas criei Maqroll quando me dei conta que a poesia que escrevia era muito pessimista e não parecia corresponder a alguém da minha idade de então.  Foi quando me ocorreu que poderia inventar um personagem que teria passado por diversas aventuras.  Foi muito útil, pois eu o colocava em todo tipo de situação. 

Seus primeiros livros eram de poemas.  Que importância tem a poesia em sua obra?

É de uma enorme importância e não apenas para o meu trabalho.  Para mim, a poesia tem a capacidade de poder revelar a verdade mais íntima do homem sobre si mesmo e sobre seu mundo.  Creio que a poesia é tão necessária que vai acompanhar o homem até o final de sua existência. É por isso que acredito na existência eterna da poesia, que não se trata do fruto de um modismo qualquer.  Muito pelo contrário: até o último homem que sobreviver na Terra, antes de morrer, ele se despedirá de forma poética.

O senhor tem facilidade para transitar tanto na poesia como na prosa.  Como isso funciona?

Desde meu primeiro livro, os críticos comentam que minha poesia é narrativa e que meus romances são marcados por trechos poéticos.  Sinceramente, não vejo fronteiras entre um gênero e outro: todo o meu trabalho segue um único caminho, que me serve para manter presentes certas paisagens e momentos que me fizeram ver o mundo sob determinada ótica.  Claro que não desprezo a diferença entre os gêneros, afinal, uma coisa é um romance de Tolstoi e outra um poema de Pushkin.

E o realismo mágico, que consagrou seu amigo Gabriel García Márquez?  O senhor chegou a dizer que o realismo está morto, é verdade?

Ah, sim, está morto.  Sempre vi no realismo mágico uma espécie de truque artificial literário muito talentoso, mas não passa de um filho natural do surrealismo.  Um estilo que não podia viver muito tempo.  Esses fenômenos se completam num tempo natural.

É possível identificar algum tipo especial de literatura latina nos dias de hoje, algo que tenha substituído o realismo mágico?

Hoje temos o que deveria ter acontecido há pelo menos 200 anos: um trabalho literário totalmente próximo da vida cotidiana, atual.  Sem buscar complicações nem interpretações universais.

É por isso que tanto sua poesia como sua narrativa são marcadas por obsessões e pelo ambiente que o cerca?

Sim, é verdade.  Talvez porque eu queira que minhas obsessões continuem vivas, sejam belas ou feias, não importa: são como pedaços de mim.

Para o senhor, então, a poesia (e também a prosa) é um dos caminhos que resgatam o homem de seu triste destino?

Claro que sim.  A poesia é vida, é viver. É por esse motivo que sempre haverá poetas, donos de vozes secretas, aquelas que, de tão escondidas dentro da alma, às vezes se manifestam sem que o poeta se dê conta.  Isso acontece, às vezes, também com traduções.  Veja um exemplo: minha poesia já foi vertida para o português e, graças ao talento do tradutor Geraldo Holanda de Cavalcanti, pode-se ler minha poesia em português, um idioma que venero - aliás, sigo sendo um grande leitor de Machado de Assis.  Isso prova que a poesia é vida, é essencial para se viver.

Por que, então, o senhor não gosta de tratar de política em seu trabalho, uma vez que essa atividade também é inerente à vida?

Porque a política não me diz nada, desde criança.  Trata-se de um mundo de ambições pessoais, de desejos de um poder que, em resumo, é algo tão relativo.  A direita me parece quase tão terrível como a esquerda.  Por isso nunca assinei nenhum manifesto político.  Não acredito nesse tipo de força.  Para ser sincero, o último acontecimento que verdadeiramente me preocupou em política foi a Queda de Constantinopla nas mãos dos turcos em 1453 (risos).

É por isso que o senhor sempre gostou de brincar ao dizer que se sente um homem medieval inserido nesse novo século?

Acho que sim (risos).  Meu caso é particular pois nunca vivi da minha vocação literária.  Minha poesia, meus livros, alguns artigos que publiquei, ensaios, tudo foi escrito à margem de trabalhos completamente estranhos. É como falar de duas vidas.  Assim, não sou esse intelectual que tanto dizem, de maneira nenhuma. 

Quais atividades o senhor praticou paralelamente à literatura?

Muitas: fui locutor de notícias pela Rádio Difusão Nacional de Colômbia quando tinha 19 anos.  Em seguida, chefe de publicidade de uma companhia de seguros.  Depois, o mesmo cargo em um consórcio cervejeiro e, a seguir, de uma linha aérea.

Com tantas atividades, é difícil imaginar, portanto, que Maqroll seja tudo o que o senhor desejou ser mas nunca foi (risos).  Voltando a falar de sua obra, é quase um consenso que foi seu trabalho e o de García Márquez os primeiros a retratar a paisagem sul-americana sem que fosse um mero adorno.

Acho que pode ser.  Claro que usamos formas bem distintas - Gabo com uma visão, eu com outra.  Aliás, na sua obra, gosto muito de O Outono do Patriarca, que está injustamente relegada por não fazer tantos carinhos no leitor.  Já Conversa na Catedral, de Mario Vargas Llosa, é um grande livro sobre a miséria, a sordidez da política na América Latina, sobre a mesquinhez das nossas burguesias. 

Além de Machado de Assis, que o senhor já citou, o que mais lhe agrada na literatura brasileira?

Sou um grande leitor de literatura brasileira.  Além do Machado, outro que me agrada muito é Graciliano Ramos.  Mas não posso me esquecer dos poetas dos séculos 19 e 20.  Acredito que a poesia brasileira é a mais sólida da América Latina.  E o mais curioso é imaginar um país que, na época romântica, tinha um escritor como Machado de Assis, que agarrava a realidade pelo pescoço e, muitas vezes, a transformava em poesia também.

Como foi receber o Prêmio Cervantes?

Uma emoção sem tamanho.  Não apenas pela importância do prêmio, mas especialmente pela admiração enorme que tenho por Miguel de Cervantes.  Claro que é impossível comparar, mas ele, como eu, também trabalhou com diversas profissões sem ter nenhuma ligação com a literatura.  Sua vida foi muito tortuosa, ele sofreu muito mas, mesmo assim, escreveu obras capitais como Dom Quixote e Novelas Exemplares.

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