Confira análise filme a filme de Michelangelo Antonioni

Um dos cineastas que fez a Itália ter o melhor cinema do mundo entre os anos 60 e 70

Luiz Zanin Oricchio, do Estadão,

07 de julho de 2031 | 19h15

Que é isso, 2007? Um dia anunciamos a morte de Ingmar Bergman e no seguinte, a de Michelangelo Antonioni. Vão-se, praticamente juntos, dois dos últimos mestres de uma fase áurea do cinema. Antonioni tinha 94 anos, estava doente havia muito tempo e morreu em sua casa, em Ferrara, na terça, 31. Não falava desde quando sofreu um acidente vascular cerebral em 1985. Já nessas condições visitou o Brasil, em 1994. Esteve em São Paulo e daqui seguiu para o Festival de Gramado, onde foi homenageado. Foi personagem principal de uma noite inesquecível, a projeção, no Palácio dos Festivais, de uma de suas obras-primas, A Noite. A Aventura (1959), A Noite (1960), O Eclipse (1961), filmes que formavam a chamada "trilogia da incomunicabilidade" e fizeram a fama de Antonioni naquela virada dos anos 50 para os 60. O curioso é que o rótulo de "cineasta da incomunicabilidade", bem acolhido durante algum tempo, depois passou a enfastiá-lo. Dizia, com razão, que tudo o que procurava com seus filmes era justamente se comunicar com o público. Mesmo que essa comunicação falasse exatamente dessa impossibilidade de um encontro completo e pleno entre as pessoas.  Veja também: Galeria de fotos Trecho de 'Michelangelo Antonioni', de Caetano Veloso Trailer de Blow-up - Depois Daquele Beijo Cena de 'O Deserto Vermelho' Blog do Zanin: Morreu Antonioni 'Cinema sente-se órfão', diz presidente do Festival de Cannes Morre o cineasta sueco Ingmar Bergman   Casal moderno Antonioni, assim como seus amigos Fellini e Visconti, veio da escola neo-realista, a mais fértil do cinema italiano dos anos 40-50. Mas, em seguida desenvolveu estilo e preocupações temáticas próprias. Assim como Bergman, tinha interesse pelas situação do homem em sociedade e, sobretudo, as complicadas relações do casal moderno. Também como o mestre sueco, Antonioni tentou compreender a alma feminina, mesmo sabendo que tal tarefa é sempre destinada ao fracasso, como aliás já sabia o próprio Freud.  Muitos outros são seus filmes importantes, como o angustiado Deserto Vermelho, com Mônica Vitti, ou o formidável Passageiro: Profissão Repórter, que filmou com Jack Nicholson no papel principal. E que papel! Nicholson nunca fez nada melhor do que esse personagem que troca de identidade com outro e leva a farsa dessa segunda pele até as últimas conseqüências.  Parceria com Wenders Outros pontos altos de Antonioni são Blow Up - Depois Daquele Beijo (1966), livre adaptação do conto de Julio Cortázar, Las Babas Del Diablo, e Zabriskie Point (1969), com seu final apocalíptico. Faria ainda as primeiras experimentações com vídeo em O Mistério de Oberwald (1980), voltando ao seu universo preferencial com Identificação de Uma Mulher (1982). Depois do longo silêncio causado pela doença, retorna à direção, mas desta vez a quatro mãos, com Wim Wenders, com Além das Nuvens, a adaptação de um texto próprio, Bowling Sul Tevere. Já bastante doente, em cadeira de rodas, comparece ao Festival de Veneza de 2005 para acompanhar a projeção e o debate de Eros, no qual assina o episódio O Fio Perigoso das Coisas.  É o último que se vai do grande grupo de diretores que fizeram a Itália ter, entre os anos 60 e 70, o melhor cinema do mundo.  Confira análise filme a filme  As AmigasBaseado num texto de Cesare Pavese, Antonioni coloca sua câmera no mundo da moda de uma cidade industrial como Turim. No interior desse microcosmo, surge um tema inesperado, o suicídio, que era, como se sabe, uma questão crucial para o próprio Pavese. Na vida das amigas que se dedicam à moda, todas conseguem resolver-se, de maneira melhor ou pior. Menos uma, Rosetta (Madeleine Fischer), a mais sensível, talvez a melhor de todas e que, por isso, não encontra seu lugar no mundo. O impossível lugar no mundo - um tema de Antonioni, por definição. A AventuraA vida dissoluta dos ricaços é mostrada neste passeio a uma ilha vulcânica. Um misterioso acontecimento perturba o ambiente: Anna (Lea Massari) desaparece na ilha e ninguém consegue encontrá-la. O que poderia ser apenas um thriller, transforma-se, sob o toque de Antonioni, em um campo de batalha existencial, no qual os personagens se confrontam com suas ambigüidades, sua fragilidade, seu egoísmo, sua relação sempre insuficiente em relação ao outro.  A NoiteMarcello Mastroianni e Jeanne Moreau formam esse belo par, porém já bastante entediados pelo simples motivo de estarem juntos. No início da história, eles visitam um amigo, que está à morte em um hospital. Confrontam-se com o inevitável, com o término de toda experiência humana, mas nem por isso deixarão de entediar-se, com tudo e em particular, um com o outro. São bonitos, não têm grandes problemas de sobrevivência e, no entanto, não encontram um lugar no mundo. Essa é uma questão de Antonioni: que lugar ocupamos num mundo hostil?  O EclipseMonica Vitti vem de um relacionamento complicado e tenta um novo affair com um jovem corretor de bolsa de valores, vivido por Alain Delon. Mas o caso não progride. Há uma cena antológica, quando se faz um minuto de silêncio na bolsa de Milão em honra de um corretor que morreu, e logo a seguir a balbúrdia do pregão se impõe. O final é um dos mais belos - e melancólicos - da história do cinema. Não há saída para o casal, nem para nada. E a própria natureza parece morrer quando o eclipse solar vai causando o escurecimento da cidade.  O Deserto VermelhoUm dos grandes trabalhos de Monica Vitti, atriz com quem Antonioni foi casado. Ela faz a dona de casa angustiada, que não sabe direito de onde lhe vem tanto mal-estar diante do mundo. A trilha sonora inusual, a fotografia em cores de Carlo Di Palma, valem ao filme uma ambientação muito marcante. É mais uma tentativa de retratar a vida alienada na sociedade contemporânea. Monica não sabe a razão da sua infelicidade. E essa é a tese de Antonioni, não sabemos o porquê, ele está oculto e faz parte da própria alienação. Blow Up - Depois Daquele BeijoDavid Hemmings e Vanessa Redgrave estão no elenco deste que é um dos mais emblemáticos títulos dos anos 1960. Hemmings faz o fotógrafo de moda que, casualmente, descobre um crime quando revela uma de suas fotos, feita num parque público. O filme capta a agitação da Swinging London, mas é muito mais do que um documentário de época. Adaptado de Las Babas del Diablo, conto do argentino Julio Cortázar, procura ser um estudo sobre aquilo que vemos e deixamos de ver na sociedade contemporânea. É também uma reflexão sobre o olho moderno - o da câmera por excelência. O crime, "oculto", se desvela apenas para as lentes de Hemmings. O cinema também teria essa função, de olhar contemporâneo, testemunha da imagem num mundo que não quer ver.  Zabriskie PointÉ o único filme norte-americano de Antonioni e representa sua imersão nos valores da contracultura próprios da época. O filme tem um aproach não-realístico dessa realidade social e esse ponto foi apontado como motivo para o seu fracasso comercial. Usa na trilha sucessos da época dos Rolling Stones e Pink Floyd. O apocalipse nuclear, ainda um fantasma da época da época da guerra fria aparece no horizonte deste filme ousado, talvez não tão rigoroso do ponto de vista formal como os outros, mas ainda assim encantador. Como tudo o que Antonioni fez, presta-se (também) como comentário à sua época.  O Passageiro - Profissão: RepórterTalvez o melhor trabalho de Jack Nicholson no cinema seja neste filme de Antonioni. Inspirado em O Finado Mattia Pascal, de Pirandello, trata da troca de identidade. Nicholson faz o personagem dado como morto e assume a identidade de outro. Passa a viver a vida alheia até descobrir que está metido numa aventura perigosa e que pode terminar mal. Mesmo assim a leva até as últimas conseqüências. Um dos trabalhos mais brilhantes de Antonioni no plano formal, tem um dos finais mais conhecidos entre os cinéfilos, um longo plano em que a câmera passeia do interior de um quarto de hotel, sai à pracinha e volta ao aposento, como se atravessasse as grades da janela.  Além das NuvensEsse filme de episódios é co-dirigido por Wim Wenders, pois Antonioni, já doente, não poderia assumi-lo sozinho. John Malkovich faz o papel de um diretor e funciona com elo entre as histórias. É obviamente, um alter ego de Antonioni. Nesses episódios prevalece a atmosfera básica que costumamos encontrar em seus filmes: a angústia, o sentimento de estranheza do mundo, a falta de sentido das coisas. As histórias são tiradas de um livro do próprio Antonioni, Quel Bowling Sul Tevere: Crônica de um Amor Que jamais Existiu, A Garota, O Delito, Este Corpo de Lama e não Me Procure.  Eros (Episódio ‘O Fio Perigoso das Coisas’)Último trabalho de Antonioni, neste filme de episódios, partilhado com Wong Kar Wai e Steven Soderbergh. No de Antonioni, temos a história de um casal, que fica fascinado pela mesma mulher. Não sabemos bem como Antonioni o dirigiu, doente e envelhecido que estava. No entanto, o filme tem pontos de contato com sua obra, em especial na temática, mas também no clima levemente perverso que se desencadeia assim que o homem e a mulher acabam caindo na mesma rede erótica da estranha. O interessante é que o filme utiliza a canção Michelangelo Antonioni, composta por Caetano Veloso em homenagem ao mestre.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.