Camila França
Julia (à esq., de azul), Giovana, Luisa e Lucas: susto no começo da quarentena e mais cautela hoje Camila França

Confinadas e cheias de ideias, crianças fazem arte e dão susto nos pais

Pediatra Daniel Becker dá dicas de segurança doméstica no momento em que pais tentam evitar acidentes como o de Julia, que precisou levar ponto no queixo em plena quarentena

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S. Paulo

25 de abril de 2020 | 05h00

No condomínio em que Julia França Motta, 9 anos, vive e está confinada, em São José do Rio Preto, tem uma corda para as crianças se balançarem. Pois ela subiu e resolveu soltar a mão. O tombo não foi de uma altura significativa, mas foi o suficiente para ela abrir o queixo e impressionar a irmã, de 10, e os primos de São Paulo, de 8 e 5, que estão passando a quarentena lá, pela quantidade de sangue que jorrava.

“Costumo ser tranquila, mas a primeira coisa que pensei foi que ia ter que dar ponto, que teríamos que sair de casa, que o coronavírus estava lá fora”, comenta a mãe, Camila França. Julia deu sorte: os pais são médicos. Foram seis pontos, dados pelo pai, cirurgião plástico, na clínica do casal, e tirados em casa mesmo.

Isso tudo aconteceu entre a segunda e a terceira semana da quarentena, e por lá segue a média de um pequeno acidente por dia – um joelho ralado aqui, uma queda da escada ali – mas nada mais grave do que isso. “As crianças ficaram mais atentas. Agora colocam joelheira e cotoveleira para andar de patins e tênis para andar de bicicleta”, conta. 

Como as quatro crianças na casa de Camila, há milhares de meninos maluquinhos (leia também uma entrevista com Ziraldo) confinados em espaços razoáveis ou mínimos, na companhia de outras crianças ou sozinhas, brincando, se entediando, aprontando e se colocando em risco. Uma preocupação grande para pais num momento em que o pronto-socorro é o último lugar para se estar.

“Há um aumento do registro de acidentes, que está sendo notado pelos pediatras, e é óbvio que isso ia acontecer. Elas estão mais tempo em casa e os pais estão ocupados com milhões de coisas e não têm outra pessoa ajudando a cuidar. É uma fatalidade quase inevitável”, diz o pediatra Daniel Becker. É possível, porém, tentar evitar alguns tipos de acidente (veja as dicas do médico) e fazer os primeiros socorros em casa, como no caso de uma queimadura (deixar a mão, por exemplo, em água corrente, fria, por 5 minutos). Se for uma queda em que primeiro bateu o bumbum e depois a cabeça, observe. Se houve trauma craniano, de braço ou perna, o atendimento, orienta Becker, deve ser feito no hospital. “Não é terrível quanto parece porque as emergências pediátricas, até o momento, não estão tão lotadas. “Muitas crianças com covid-19 são assintomáticas. O problema é para os pais e a indicação é uso de máscara caseira nas emergências e ter o mínimo de contato possível”, explica.

Para evitar maiores preocupações, Ana Beatriz Ortiz Taleb entrou num carro em São Paulo, na segunda semana da quarentena, com o marido e os dois filhos, Leonardo, 9, e Rafael, 7, e 1.200 quilômetros e 12 horas depois chegou à fazenda da família, em Mato Grosso do Sul. “Eles são muito agitados, não param quietos e não cansam nunca.” A ver pelo vídeo enviado à reportagem, os meninos estão mesmo mais seguros com espaço para gastar toda a energia. “Faço terrorismo – e acho que isso foi dando a eles consciência do perigo –, mas eles estão o tempo todo aprontando e tenho medo que eles se machuquem mais sério”, diz. O saldo desse primeiro mês foi uma queimadura na cozinha.

Por falar em aprontar, mais no sentido de fazer arte do que se colocar em risco, a pequena Sofia, 3, tem se mostrado mestre. Às vezes acontece de os pais Karen Mizuta, consultora de negócios internacionais, e Marcelo Aydar Sandoval, economista, estarem em reunião ao mesmo tempo. São nesses momentos em que ela entra no seu esconderijo e corta o cabelo, pinta o corpo e a parede com guache ou para de brincar de mentirinha de maquiagem e aparece, no meio do call dos pais, com batom de alta fixação no rosto todo dizendo que é um monstro. “Mas a parte bonita de tudo isso é que ela está inventando muita coisa, construiu móveis de papelão e está mais independente”, pondera Karen. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Como evitar acidentes domésticos com crianças na quarentena

O pediatra Daniel Becker mostra alguns cuidados básicos que os pais devem seguir durante o confinamento e depois também

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S. Paulo

25 de abril de 2020 | 05h00

No momento em que milhares de crianças estão confinadas em casa por causa do coronavírus, é preciso estar atento a alguns cuidados para evitar acidentes domésticos, que naturalmente vão aumentar nesta época.

"Estatisticamente o risco de acidentes domésticos aumenta muito porque as crianças estão mais tempo em casa e os pais estão ocupados com milhões de coisas. Está todo mundo trabalhando muito, seja em que nível for - no caso dos mais pobres nas periferias ou dos pais de classe média que costumavam ter alguma ajuda, na figura de uma empregada doméstica ou de uma avó. Sem contar as mães sozinhas. Então, é uma fatalidade quase inevitável", explica o pediatra Daniel Becker em entrevista ao Estado para a reportagem Confinadas e cheias de ideias, crianças fazem arte e dão susto nos pais. 

Daniel Becker, no entanto, dá algumas orientações para evitar acidentes domésticos. De acordo com ele, crianças precisam ser observadas o tempo todo, sobretudo as menores de 5 anos. Bebês só podem ficar sozinhos se estiverem dormindo em lugares seguros e cercados. Janelas, escadas, varandas devem ter redes de proteção e os brinquedos dos maiores podem ser perigosos para os menores. Veja outras dicas.  

Cozinha e lavanderia 

  • Mantenha as crianças longe da cozinha, a não ser quando elas forem ajudar os pais 
  • a preparar uma refeição;
  • As panelas devem estar com os cabos virados para dentro; gavetas com facas e objetos cortantes devem ficar fora do alcance das crianças, assim como sacos plásticos, fósforos, álcool e produtos de limpeza;
  • Baldes e bacias devem estar sempre vazios;
  • Cuidado com forno, ferro de passar e líquidos quentes;
  • Ração dos animais de estimação, castanhas e amendoins podem engasgar os menores;
  • Álcool líquido (70° ou 96°) é altamente inflamável e perigoso. Álcool gel também pode gerar chama (às vezes invisível). Não faça brincadeiras e não deixe fósforos por perto.

Banheiro

  • Mantenha a tampa do vaso sanitário lacrada;
  • Na hora do banho, supervisione os maiores e esteja junto dos pequenos;
  • Deixe fora do alcance medicamentos, tesouras e aparelhos elétricos.

Sala

  • Isole escadas;
  • Proteja tomadas;
  • Fixe e cubra os fios elétricos com fita isolante.

Piscina

  • Supervisão permanente durante o uso
  • Nunca deixe sem uma barreira de acesso.
Tudo o que sabemos sobre:
pediatriainfânciacoronavírus

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

'O coronavírus é um bom inimigo para uma HQ', diz Ziraldo

Autor de 'O Menino Maluquinho', ele deixa um recado para as crianças confinadas ('comportem-se!') e diz que elas estão presenciando um fato histórico

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S. Paulo

25 de abril de 2020 | 05h00

Para Ziraldo, de 87 anos, o coronavírus é algo tão misterioso que poderia render uma boa história para a Turma do Pererê. Ele falou com o Estado por e-mail e deixou um recado para os maluquinhos confinados, que estão fazendo arte e dando sustos nos pais

Milhares de meninos maluquinhos estão presos em casa e cheios de ideias de traquinagens. O que diria para essas crianças?

Façam uma surpresa para seus pais: comportem-se (risos). Quero só ver!

Sem espaço para brincar livremente, a imaginação corre solta. Qual é a importância da imaginação e da fantasia para a infância?

As crianças têm uma imaginação muito grande e fértil. Elas inventam coisas incríveis com uma rapidez fantástica para encher a cabecinha delas – principalmente os meninos de 8 anos, idade do Menino Maluquinho. Crianças são as veias do mundo.

Como as histórias podem ajudar os pequenos neste momento?

O coronavírus é uma coisa tão misteriosa que dá para gente inventar muitas histórias sobre ele. Eu sei que é pretensioso, mas estou com uma vontade muito grande de fazer uma aventura da Turma do Pererê em torno do coronavírus. Ainda não sei como seria, mas vou dar uma missão para a turma: liquidar o coronavírus. Isso é bastante apetitoso para a criança porque ela fica pensando: se tivesse na minha mão, como é que eu iria acabar com ele? Ela acha que pode vencer o coronavírus e vence, né? Eu acho que é um inimigo bom para uma história em quadrinhos. Mas não sei se vou conseguir fazer essa história, às vezes não sai. 

Como imagina que as crianças vão sair desta pandemia?

Essas crianças vão crescer e vão virar, como eu, avós. E então elas vão contar para os netos: meninos, eu estive lá! Vão contar a verdade ou vão inventar porque avô tem essa vantagem: ele conta a história como ele quer (risos). Eu já vou estar velho, muito velho, mas as crianças de hoje, quando estiverem com 87 anos, vão se lembrar dessa pandemia que passa pela vida apenas uma vez. É quase um privilégio você ter vivido essa aventura. Não sei como ela vai terminar, mas vai ser emocionante você se lembrar que estava presente. Como eu ouvia meu avô contar sobre a época da Gripe Espanhola. 

Imaginou que viveríamos algo assim?

Sim, imaginei que algo marcante iria acontecer ao longo desse tempo, porque sempre acontece muita coisa que a história registra. Esse é tipicamente um caso que a história vai lembrar para sempre. Sempre vai se falar da pandemia do coronavírus. Então, você que está vivendo presta atenção: você é testemunha de um fato histórico. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.