Confidências libertadoras

Em O Teatro e Eu, Sergio Britto lembra os 65 anos de carreira, em que viveu de clássicos shakespearianos a personagens de vanguarda

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

26 de maio de 2010 | 00h00

O papel mais realista de sua carreira, o ator Sergio Britto enfrentou com a caneta na mão ? durante seis meses, ele ocupou suas manhãs a se dedicar à escrita de O Teatro e Eu, autobiografia que será lançada hoje no Rio (na Livraria da Travessa) e segunda-feira em São Paulo (na Livraria Cultura do Conjunto Nacional). Trata-se de uma corajosa revisão de quem chegou aos 86 anos de idade, dos quais 65 de carreira na televisão, cinema e, principalmente, no teatro. Sem rodeios ou divagações. "Mas, se eu não tivesse escrito o primeiro capítulo exatamente como saiu, certamente o livro não teria nascido", conta ele ao Estado. "Cheguei a reescrevê-lo três vezes."

De fato, logo no primeiro parágrafo, Britto descreve como aceitou, em um impulso, trabalhar como ator em teatro universitário ? era 1945 e ele, filho de pais amorosíssimos ("Minha mãe, Alzira, era dominadora, não da maneira cruel de Amanda de O Zoológico de Vidro, de Tennessee Williams, mas tão asfixiante quanto"), sentia a necessidade de se libertar. E, apesar de seguir a recomendação paterna e estudar Medicina, viu no palco o caminho da salvação.

Assim, aos 22 anos, faz sua primeira experiência teatral, interpretando Benvólio na montagem de Romeu e Julieta. Era o início de uma carreira marcante, participando de grandes encenações nas décadas seguintes.

A decisão, no entanto, não resolveu totalmente o problema. Britto sentia-se ainda preso à família, agora por motivos mais delicados. Ele explica que, até aquela época da iniciação teatral, tivera frustradas experiências sexuais. O problema chegara a um ponto insuportável que, novamente por impulso, ele cortou os pulsos, quando estava sozinho no quarto de hotel onde a família passava as férias. "Quando fiz isso, não pensei em nada, não houve desespero ou revolta contra alguma coisa que me incomodava e de que eu quisesse me livrar", escreve. "Perdi muito sangue, escorreguei no chão e ali fiquei, até que o meu amigo, a minha primeira paixão, chegou para me levar à praia."

Ele garante que não havia intenção de se matar. "Fora tudo um ato de teatro, o meu primeiro momento teatral de uma certa intensidade." Também foi um passo decisivo na afirmação de seu homossexualismo, opção que fora confrontada pelo pai, meses depois. O ator lembra que estava prestes a conquistar a desejada liberação. O momento definitivo aconteceu quando se formou em Medicina, em 1948. A formatura ocorreu em 2 de janeiro. Quatro dias depois, ele subiu ao palco como Horácio, na histórica encenação de Hamlet, que consagrou outro iniciante, Sergio Cardoso, no papel-título. "Esse não à medicina foi o definitivo cortar os pulsos, a libertação."

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