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Confiar

Os quatro tomatinhos ficaram ali, renegados na embalagem plástica, dada minha incapacidade de confiar neles

Ruth Manus, O Estado de S.Paulo

18 Março 2018 | 02h00

Percebi que tinha desenvolvido algum tipo de problema de confiança nos outros a partir de um episódio bastante peculiar. Comprei uma salada pronta para comer no supermercado e levei um garfo na bolsa. Não havia faca. Tudo bem, era só espetar as coisas. Mas eis que algo apareceu. Redondo, pequenino e vermelho, lá estava ele, o tomate-cereja.

Olhei para o tomate e suspirei. Eu não era capaz. Não era capaz de simplesmente cravar o garfo nele e levá-lo inteiro à boca. Eu precisava de uma faca, uma faquinha qualquer, para cortá-lo ao meio e me certificar de que não havia nenhum tipo de bicho ou de podridão dentro dele. Não consegui. Os quatro tomatinhos ficaram ali, renegados na embalagem plástica, dada minha incapacidade de confiar neles. Queria comer e não comi.

Lembro-me da primeira vez que comi uma fruta com bichos. Eu tinha uns 10 anos e era um figo. E, claro, eu só descobri depois de dar uma grande mordida, sentir o sabor azedo e cuspir larvas no prato. Fiquei alguns anos sem comer figo e um bom tempo sem dar dentadas inconsequentes em frutas. Até perder o medo, me arriscar e acontecer outra vez. Na segunda ocorrência foi um clássico: a goiaba e seus famosos bichinhos.

É mesmo difícil restaurar a capacidade de confiar. Não tinha nenhuma desconfiança em relação às frutas e aos legumes até que aqueles episódios me aconteceram. E eu não tinha a dimensão do trauma até me deparar com os tomatinhos e com a ausência de um objeto cortante. Não sei se algum dia voltarei a confiar nos vegetais como antes.

Na vida é parecido. Quem já foi traído de alguma forma sabe bem. Traído por um parceiro, um amigo, um colega de trabalho, um parente. Em um dado momento a gente até supera, mas certamente são alguns anos muito indigestos. A sensação de confiar cegamente – no figo, na goiaba, numa pessoa – e se decepcionar tão profundamente é algo que sempre deixa sequelas.

A gente até pode tentar restaurar a capacidade de acreditar, mas nunca mais é igual. E, em certa medida, isso talvez seja bom. Aprender a não pôr a mão no fogo por ninguém. A confiar essencialmente em nós mesmos e no nosso comprometimento com as pessoas, sem a necessidade de apostar todas as fichas no outro. A gente volta a acreditar, mas de outra forma.

A confiança no outro não é algo fácil, mas é preciso. Porque em centenas de situações nós precisamos deles. Não há como fugir das mãos do médico, dos cuidados da creche, do veterinário, do piloto do avião, da sugestão do garçom, do trabalho do colega de equipe. Viver desconfiado pode se tornar um verdadeiro pesadelo.

Nessa semana passei por um bom teste. Esperava pelo atendimento num centro de saúde em Lisboa, quando fui acometida por uma histérica e urgente vontade de fazer xixi. Procurei o banheiro e, quando entrei, reparei que não havia forma de trancar a cabine. E como a privada era longe da porta, daquelas que você nem consegue puxar a maçaneta de volta caso alguém tente puxar por fora, percebi que precisava pedir para alguém vigiar a entrada enquanto eu estivesse lá dentro.

Torci para haver uma mulher com uma cara simpática por perto, mas não. A única pessoa que estava por ali era exatamente aquela mais indesejada para uma situação dessas. Um moleque de uns 15 anos e boné virado para trás, que, na escola, certamente era aquele que fazia as brincadeiras mais espírito de porco, segundo minha cabeça me informava.

O xixi não podia esperar. Tive que arriscar, chamei o menino e pedi para ele vigiar a porta. Imaginava o momento em que ele abriria a porta e sairia correndo, me deixando literalmente de calças na mão perante os demais. Fiz um xixi rápido e tenso. Mas assim que eu saí ele sorriu, sereno. Eu suspirei e sorri de volta, agradecendo. Que coisa boa é lembrar que a gente pode confiar nas pessoas.

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