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Conferência ou diferença?

Todo ensinar implica um combate contra dois inimigos: ignorância e a estupidez 

Roberto DaMatta, O Estado de S.Paulo

15 de dezembro de 2021 | 03h00

Uma conferência pode produzir consciência ou diferença. Assista a uma boa aula ou ouça um discurso de Bolsonaro. A questão pode parecer complicada, mas é simples, porque todo ensinar implica um combate contra dois inimigos: a ignorância que leva ao aprendizado; e a estupidez dos que negam o saber.

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Fiz uma conferência sobre um tema antropológico pouco discutido: a questão dos parentes por casamento, opostos aos de sangue com os quais o casamento é proibido. Minha conferência inspirava-se em Lévi-Strauss: ele revelou como os afins são doadores. O cunhado é chato (porque, além do mais, é ele que lhe dá a esposa; do mesmo modo que você dá sua irmã ao seu cunhado). 

O pacto demonstrado nas 639 páginas do livro As Estruturas Elementares do Parentesco (de 1949) fala dessa troca: eu não me caso com minha irmã e você faz o mesmo. Viramos cunhados ou afins e sem essa renúncia que mostra o lado positivo do incesto, a vida social perderia o seu fundamento.

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Preparei com cuidado tais ideias. Após uns dez minutos, um professor (todos os professores estavam sentados em volta da mesa e nas primeiras filas do auditório) mal ouviu o que eu disse e tomou-me a palavra. Retomei minha fala somente para enfrentar um outro colega local que interrompeu a já interrompida palestra realizando, de forma ranzinza, uma outra objeção. Falou tanto que o anfitrião, ciente do abuso, apontou para o grande relógio da parede que deveria nos controlar. Gesto inútil, porque um outro professor fez um discurso em paralelo aos outros dois rejeitando o que apresentava. 

Impedido de falar como convidado, fiquei atordoado. Olhava para cima, para os lados e para o meu texto. Naqueles tempos eu, fumante, acendi um cigarro para me acalmar, mas qual não foi minha surpresa quando um outro professor iniciou um arrevesado discurso-conferência ao lado dos outros.

Era óbvio que a minha conferência havia virado uma Babel.

Pensei que estava entre loucos desvairados, mas que nada: era o Brasil soltando suas invejas e ambiguidades com pompa, legalismo e circunstância - revelando o seu gênio para o negacionismo suicida e a preferência maciça por uma gigantesca estupidez. 

Felizmente foi um sonho. 

Acordei aliviado, mas certo de que o pesadelo replicava a desmontagem do Brasil pelos pilantras e moleques de sempre.

ROBERTO DAMATTA É ANTROPÓLOGO SOCIAL E ESCRITOR, AUTOR DE ‘FILA E DEMOCRACIA’

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