Conexões latinas

Mostra revê obras do continente, mas não escapa de alguns velhos preconceitos

SHEILA LEIRNER , ESPECIAL PARA O ESTADO / PARIS, O Estado de S.Paulo

17 de novembro de 2013 | 02h14

A exposição América Latina 1960/2013 - Fotografias, que se inaugura na terça na Fundação Cartier, pretende oferecer uma nova perspectiva sobre a fotografia do continente, "através do prisma da relação entre texto e imagem". Esta mostra, que reúne 72 artistas de onze países, é uma das 80 manifestações que transformam Paris em capital mundial da fotografia até o final do mês. Dos artistas apresentados, entretanto, apenas alguns são fotógrafos. E do continente, graças a uma curadoria autárquica por "amostras", a representação é redutora.

Explorando a estrita interação entre texto e imagem através de épocas tumultuosas da história, a perspectiva evidentemente se estreita. Mais ainda quando se pensa que a exposição foi organizada unicamente por curadores estrangeiros, sem que um comitê de consultas de especialistas latino-americanos fosse formado. A coprodução com o Museu Amparo de Puebla do México cauciona o caráter latino-americano da exposição, porém não esconde a habitual e altiva "autossuficiência" dos franceses.

Neste aspecto, entre outros, eles teriam bastante a aprender com os alemães, coautores, por exemplo, da exposição Arte da América Latina 1911 - 1968, apresentada em 1992 no Centro Pompidou em Paris e depois em Colônia. Nada menos do que dez conselheiros, mais centenas de personalidades e instituições, foram consultadas para impedir a visão redutiva de um continente formado por países geográfica, política, econômica, social e culturalmente tão únicos e diferentes entre si.

Claro, esta exibição organizada pelos seis curadores da Fundação Cartier não tem o mesmo porte e alcance. Porém, trata-se de um recorte que, como todos, é parcial e pode mistificar um pouco mais a imagem já falsificada que os europeus, sobretudo os franceses, tem da "exótica" e desconhecida América Latina. Até hoje, pelos menos um terço deles ainda acredita que a capital do Brasil é Buenos Aires e que falamos espanhol.

Em se tratando de arte, existem várias américas latinas; em se tratando de fotografia, igualmente. Aqui, pensando que se oferece uma "nova perspectiva sobre a fotografia", não se faz muito mais do que usar a história marcada pela instabilidade política e econômica, o contexto de movimentos revolucionários, guerrilhas, regimes militares, ditadura, repressão e transições democráticas, como baliza da produção artística. Ou seja, comete-se um erro epistemológico, utilizando o caminho inverso que uma curadoria de arte deveria seguir: partir das expressões artísticas para, eventualmente chegar - ou não - às questões e fatos externos a ela.

O mesmo ocorre com a noção que transmite a exposição sobre as conexões estreitas entre arte e escrita como instrumento de luta e resistência desde os tempos de Bolívar; arte e poesia, com os concretistas dos anos 50; e, de maneira mais vaga, arte e literatura com Jorge Luis Borges, Pablo Neruda e Octavio Paz. Novamente é a história e o conhecimento que servem como "boia de navegação", sempre interna à estrutura autárquica da instituição parisiense.

América Latina 1960/2013 divide-se em quatro seções temáticas: Territórios, Cidades, Informar-Denunciar, Memória e Identidades. A maior parte das obras usa a fotografia apenas como suporte. Só a lista dos artistas escolhidos faz adivinhar que a técnica e a linguagem fotográfica são na maior parte das vezes amplamente ultrapassadas por outros meios, como foto/ofsete, serigrafia, colagens, performances, vídeos e instalação. Na realidade, embora seja apresentada no âmbito do "mês da fotografia", esta não é uma "exposição fotográfica". Mais do que isso, é uma exposição imagética.

Não que se queira negar a nobreza da intenção da Fundação Cartier. Ajudar a descobrir artistas e obras situados à margem das trajetórias habituais do mundo e do mercado da arte contemporânea, e testemunhar - por meio de 500 obras - a "vitalidade da arte latino-americana e a herança significativa que nos deixam os artistas" é bastante honroso. Porém, esse mesmo propósito poderia ter obtido resultados mais justos, em alguns casos com artistas mais representativos talvez, se não se tivesse optado pelo método surdo, fácil e autossuficiente da curadoria histórica por "espécimes notáveis". Aquela que enxerga "de camarote" a turbulência dos valores onde a arte se origina.

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