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Não é todo dia que um programa de TV voltado ao debate, ao comentário e realizado a pelo menos quatro mãos, chega aos 20 anos, como é o caso do Manhattan Connection. Dizem os entendidos que a televisão é um veículo poderoso, mas sem a densidade da escrita que permite não só as entrelinhas, mas a releitura. Na TV, as coisas "passam", no jornal elas ficam. Podemos recortá-las e entesourá-las como relíquias de pessoas e épocas. Ademais, a TV, mesmo gravada, precisa de um outro artefato para sua reprodução, o que não é o caso do noticiário escrito, o qual dispensa baterias.

Roberto Damatta, O Estado de S.Paulo

27 de março de 2013 | 02h09

Tudo isso para falar da minha satisfação de ter tomado parte da comemoração dos 20 anos do programa na última sexta-feira, dia 22, na TV Globo em São Paulo. O programa, idealizado e ancorado com freudiana maestria por Lucas Mendes, que tem Caio Blinder como um dos seus participantes mais intensos - Caio não faltou a nenhuma gravação desde 1993; que teve o hipercriativo Nelsinho Motta e um polarizador mítico - Paulo Francis - que, com sua poderosa figura, marcava sua presença de Nova York para o Brasil. Com a inopinada morte do Francis, em fevereiro de 1997, o programa sofreu uma reviravolta, mas encontrou outros comentaristas - como o peso pesado Arnaldo Jabor - e sobreviveu.

Hoje, ele conta com o Lucas, o Caio, o Pedro Andrade, o Diogo Mainardi e o Ricardo Amorim - todos devidamente editados por uma paciente e competente Angélica Vieira. Todos realizando seus brilhantes, quase sempre inflados e bem informados, comentários de Manhattan, Veneza (Diogo) e São Paulo (Ricardo).

Tomei, atemorizado, parte no MC como primeiro convidado do programa em fevereiro de 1997, antes da morte do Francis e, logo depois, voltei a participar quando ele saiu do palco, num momento de triste retomada.

Na sexta-feira, em São Paulo, fui honrado como o "primeiro" a tomar parte no programa. Esse "primeiro" que, como vocês sabem, é sempre lembrado, ao lado do "último". Estive quatro vezes no Conexão e em todas descobri o meu sem jeito de comentar os fatos do mundo. Salvou-me o bom humor e o apoio generoso dos participantes. O fato é que eu me sinto melhor com a escrita, que permite ponderar sobre o que se diz e que tem o poder de desdizer dizendo - essa propriedade da literatura. Mas fui e fiz o meu papel.

O convite puxou pela memória. E a grata presença dos velhos conhecidos de duas décadas - o Lucas Mendes e o Caio Blinder levaram-me de volta à Indiana onde conheci o Caio na Universidade de Notre Dame, tendo sido professor da Alma, sua esposa. Afora isso, a memória da minha participação no programa é feita de gratos fragmentos. Um deles é a surpresa de testemunhar um programa marcante pela discussão inteligente, bem-humorada e informada das coisas do mundo na televisão. Embora seja uma "conexão Manhattan" com um toque provocador e arguto de Europa dado pelo Mainardi, o programa tem um indiscutível sabor brasileiro, pois nele pipocam alegres dissidências de botecos, informações sofisticadas do melhor estilo jornalístico internacional e a pimenta de uma risonha linguagem brasileira.

Num dado momento, o Lucas (ou teria sido o Caio?) me perguntou o que eu via nestes 20 anos no mundo e no Brasil. Coisa grande demais para dois minutos. Respondi inseguro porque sou ruim no bate-pronto. Fui hesitante ao falar sobre o mundo, e me esqueci do Brasil. Eis o que deveria ter falado:

De 1993 para cá, o Brasil abriu-se e igualou-se ideologicamente. Esquerda e direita têm sido substituídas pelo certo e pelo errado, pelo ético e pela 'calhordagem'. Os meios não podem mais justificar os fins. O básico desse período foi ter a esquerda no poder, como tenho dito muitas vezes nesta coluna. A implacável oposição petista engravidou como situação e governo. Integrou-se na tal "política brasileira": virou retrógrada e viu nascer a corrupção no seu ventre imaculado. Descobriu-se igualmente insegura, demagógica e populista. Chegamos todos a um ponto comum - onde o radicalismo tem como inimigo simplesmente o bom senso.

No programa eu, atabalhoado, falei do 11 de Setembro. Mas nossas torres destes 20 anos são uma "jamais vista" demanda de igualdade democrática; e, no mundo, a consciência de que seus recursos são menores do que a máquina de um capitalismo ainda desenhado para consumistas ricos e celebridades amorais.

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