Conexão latina deve continuar mais contida

Tendência kitsch une brasileiros e outros sul-americanos

Lauro Lisboa Garcia, O Estado de S.Paulo

10 de março de 2011 | 00h00

Brega é tendência e já não tem mais o sentido pejorativo de tempos atrás. Hoje, aos 40 anos de carreira, o redescoberto Odair José é cult e não está sozinho. Influências naturais da canção romântica popular se espalham pela música de jovens cantores e bandas, como se viu em boa parte do Rec-Beat 2011, no caso de Felipe Cordeiro, da dupla Criolina (formada por Alê Muniz e Luciana Simões) e Marcelo Jeneci. O pernambucano Ortinho, que tocou em outro palco dentro do carnaval do Recife, é outro nome evidente nessa onda.

Odair atraiu um dos maiores públicos do festival na noite de segunda e, apesar de estar na fase final de um álbum de inéditas produzido por Zeca Baleiro, não precisou trazer nada de novo para cair nas graças da plateia.

Foi um sucesso atrás do outro, incluindo Eu Vou Tirar Você Desse Lugar, Essa Noite Você Vai Ter Que Ser Minha, Foi Tudo Culpa do Amor e Cadê Você, tocados com simplicidade por um trio básico, além de seu violão elétrico. Claro, todas acompanhadas em coro pelo eclético fã-clube de várias classes sociais, incluindo o empolgadíssimo cantor Lirinha (ex-Cordel do Fogo Encantado). Até na passagem de som tinha gente pedindo bis.

Referências. Além das novidades, o festival procura trazer nomes de referência, como Pinduca, Riachão, Banda Isca de Polícia e agora Odair. "Gosto de apontar a linha evolutiva das coisas", diz Antônio Gutierrez, o Guti, diretor do festival. "É para dar um alerta aos jovens que o novo vem de algum lugar." Prova disso é que Jeneci tem muito de Odair.

A estética kitsch marcou esta edição do festival, que também teve mais conexões sonoras com a música afro-latino-americana, especialmente a caribenha, do que em outros anos, como no trabalho dos nortistas Felipe Cordeiro e Criolina. A dupla maranhense deu ênfase às canções do segundo álbum, Cine Tropical, e levantou o público com calorosa mistura de gêneros dançantes, como carimbó, funk, afrobeat, curiosos covers de Negue (Lupicínio Rodrigues), puxado pro ska, Quizás, Quizás, Quizás (bolero convertido em surf-rock), Night Nurse (roots reggae de Gregory Isaacs) e o brega. Tudo a ver com Pinduca, Odair e congêneres.

"O festival se tornou um pouco mais latino nos últimos anos, mas talvez no próximo ano já tome outros rumos. Tenho trabalhado muito a dinâmica do festival para a gente estar sempre um pouquinho à frente, porque o Rec-Beat cresceu muito e meio que se tornou uma referência no carnaval", diz Guti. "Há um risco muito grande de ficar igual aos outros palcos. A música latina deve continuar, mas de forma mais contida. Talvez passe a visitar outros continentes para dar uma arejada." O grupo argentino Kumbia Queers foi uma surpresa, mas era um receio de Guti, já que a cumbia tem sido muito revisitada e virou modismo.

O festival também é "uma vitrine da música pernambucana" e trouxe este ano as novas Sweet Fanny Adams, Solis e Frevo Diabo, além do consagrado Mombojó, que comemorou seus dez anos no domingo para o maior público desta edição.

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