Conexão: diálogo musical

Violinistas holandesas se mudam para Heliópolis e preparam concerto na favela

JOÃO LUIZ SAMPAIO, O Estado de S.Paulo

20 de março de 2012 | 03h07

Rosane pretendia se mudar ainda ontem. Desde que chegou ao Brasil, há quatro semanas, a violinista holandesa de 22 anos estava morando na casa de um dos músicos da Sinfônica de Heliópolis, nas proximidades da Estrada das Lágrimas. "É aqui perto, na fronteira com a favela", ela diz - e explica o motivo da mudança. "A família com a qual eu estava é muito gentil, mas eu queria entrar mais na comunidade, senti-la bem de perto." O que a move não é apenas curiosidade - estar ali será fundamental para concretizar seu projeto: um concerto em procissão pela favela.

Rosane Jacobs conheceu a orquestra no fim de 2010, quando os músicos de Heliópolis estiveram na Holanda durante uma turnê europeia. "Foi algo especial ver de perto algo que há muito não via: o simples prazer de fazer música", diz. Na Holanda, receber dos pais um violino quando se tem 7, 8 anos é algo normal, explica - e, por isso, nem sempre os músicos se dão conta do quanto isso é especial. "Fazer música se transforma em algo automático, a competição é enorme, nos conservatórios a espontaneidade desapareceu."

Emma Bredveld, de 38 anos, também violinista, concorda. Não viu o concerto dos jovens de Heliópolis na Holanda. Mas presenciou o encontro deles com crianças de um projeto de inclusão social por meio da música nos arredores de Amsterdã. "Muitas vezes é complicado estabelecer uma relação com os jovens, boa parte deles filhos de imigrantes", conta. "Mas, com os meninos de Heliópolis, uma mágica aconteceu. De repente, estavam todos conversando, tocando, trocando experiências."Às vésperas de se formar no conservatório, pediu uma licença e embarcou para o Brasil. "Queria entender o que acontece aqui."

Pouco depois de chegar a São Paulo, Rosane propôs o concerto pela comunidade. A ideia é simples. Músicos da Sinfônica de Heliópolis e de outros grupos do Instituto Baccarelli vão se espalhar pela favela no começo da tarde de 21 de abril e começarão a tocar em direção a um ponto comum, onde se reunirão para um concerto. "Desde que cheguei, comecei a caminhar pela comunidade. É engraçado que os músicos queriam ficar sempre comigo, para me proteger. Mas me sinto segura aqui, mais do que no centro da cidade. Aqui, todos sabem quem sou, o que estou fazendo, entendem meu interesse por eles. Enfim, dessas caminhadas surgiu a ideia do concerto. O Instituto Baccarelli recebe a favela, abriga seus habitantes. E o que pensei foi fazer o caminho contrário, ou seja, levar o instituto para o meio da comunidade."

Nesse processo, explica Rosane, é muito importante incorporar as manifestações dos músicos. "O que me interessa é estimular a criatividade deles. Há no dia a dia desses músicos uma disciplina fundamental, pois leva ao respeito entre eles, à capacidade de ouvir o outro, o que ele tem a dizer - e sem isso não se faz música e nem se vive direito", diz. "Mas, na hora que vamos sair do instituto e entrar na favela, na casa deles, acredito que é importante deixá-los à vontade para buscar a linguagem e as ideias que parecem mais interessantes para eles."

Enquanto isso, Emma recolhe dados sobre a rotina dos cerca de 1.300 alunos do instituto, que se espalham por várias orquestras e corais infanto-juvenis, além dos cursos de musicalização destinados às crianças menores. "O clima caloroso me impressionou muito. Todos, professores, alunos, fazem parte de tudo, trocam experiências a cada instante. E, ainda que exista disciplina, a hierarquia não é o ponto de partida, como acontece hoje na Holanda, na Europa. O respeito vem de outro lugar, do amor compartilhado pela música, e isso para mim é algo novo, acredite. Estou certa de que, ao voltar para Amsterdã, teremos um caminho interessante. Fiquei particularmente interessada na prática coral, que aglutina boa parte dos iniciantes aqui no instituto. Todos cantando juntos - é uma maneira de estabelecer desde cedo o diálogo e o prazer de se fazer música em conjunto. Parece simples, mas não é."

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