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Condomínios mentais

NOVA YORK - O uso da rede social aumenta em tempos de crise e não tem sido diferente no Brasil. Mas estou ouvindo cada vez mais brasileiros dizerem que evitam acessar a própria conta no Facebook por fadiga de hostilidade ou para não sofrer mais decepções com amigos. A rede social não reinventou o homem, apenas potencializou comportamentos.

Lúcia Guimarães, O Estado de S. Paulo

23 de maio de 2016 | 04h30

Em 2012, durante a campanha presidencial norte-americana, conversei com o autor Jonathan Haidt, que tinha acabado de lançar The Righteous Mind (A Mente Virtuosa). Haidt é um conhecido especialista no campo da Psicologia Moral e pedi a ele que comentasse o rancor político que reinava no país.

Haidt me explicou que o surpreendente não é a polarização. Do ponto de vista evolucionário, é um milagre que possamos trabalhar em grupos e viver em comunidades sem nossa família ou tribo. “A moralidade une e cega”, ele disse. Haidt acha que a neurociência recente desmentiu o que chama de a ilusão racionalista. Desde Platão, o homem ocidental explica a sua superioridade sobre os outros animais pela capacidade de raciocínio.

Mas o homem é tão racional quanto Eduardo Cunha explicando suas contas na Suíça. Somos programados para sentir simpatia ou antipatia por algo e depois despachar a razão para encontrar a explicação que nos declare corretos. É o chamado preconceito da confirmação. Mas, no mundo analógico, esta expedição dava um pouco mais de trabalho, por exemplo, procurar um jornal para saber se Lula está mesmo doido para ver Dilma de volta ao Planalto. Hoje, é só digitar online “Dilma é a melhor presidente da história do Brasil” e encontramos incontáveis sites e grupos no Facebook para confirmar a tese.

O que a rede social e a internet fizeram foi acelerar e intensificar o isolamento em condomínios mentais fechados. Quando encontramos nossa turma, a tendência é proteger a coesão afastando quem desafia nossa versão do mundo. Por estar na minha infância no Facebook, fico fascinada quando pessoas que não conheço, nem mesmo amigos de amigos, entram na minha timeline para me espinafrar, como se, a esta altura da vida, fosse mudar de ideia com uma frase obnóxia atirada por um estranho.

A neurociência mostra que, ao sofrer dano na parte central inferior do córtex frontal, uma área responsável pelas emoções, as pessoas começam a agir de maneira errática. Ao ler a explicação anterior, é irresistível fazer um desfile mental de figuras que povoaram nossa política nos últimos anos. Será que além do Ficha Limpa, precisamos de um movimento pela ressonância magnética do córtex frontal antes de qualquer um concorrer a cargo eletivo?

Não entendo bulhufas do córtex ou do lobo cerebral, mas mandei minha razão ali na esquina buscar a confirmação de uma tese que implanto com o zelo capilar de Renan Calheiros. Além da onipresença da rede social, é uma ausência que está jogando brasileiros contra brasileiros. É a falta de conversa oral. Ninguém mais fala. Entre num restaurante e veja quantas pessoas estão frente a frente, mas com os olhos grudados nos smartphones. A abolição das cordas vocais no diálogo está matando o diálogo. Há educadores norte-americanos relatando sinais de queda de empatia entre adolescentes criados numa dieta de mensagens de texto.

Estreou em Nova York o documentário sobre o ex-deputado Anthony Weiner, cuja promissora carreira foi destruída quando ele enviou imagens em close up de seu equipamento genital (não em repouso) para várias mulheres. Se Weiner fosse conversar com uma delas em pessoa, ia abrir o papo arriando as calças?

No país dos não leitores de livros, a falta de civilidade que torna mais dolorosa a nossa depressão econômica é ironicamente agravada pela palavra escrita. Posso não ser racional, mas, neste caso, tenho ou não tenho razão?

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