Condomínio Brasil

Dizem que a política é a arte do convívio, mas acho essa definição uma maldade com a arte. Política, sim, no sentido amplo, de "polis", de cidade, de aglutinação, não é apenas exercer cargos públicos e escolher seus ocupantes; é algo que faz parte até do dia a dia mais íntimo, permeado por relações de poder, como estudado por autores como Hannah Arendt. Acontece toda vez que decidimos, por exemplo, não falar para os outros o que realmente pensamos, ou quando vemos numa aproximação pessoal a possibilidade de satisfazer um interesse, ou quando somos obrigados a acatar uma ordem com a qual não concordamos. Mas isso está longe de ser uma "arte" no sentido de ser uma técnica que dominamos, baseada em nossas decisões, e, além disso, as artes demonstram que o convívio não cabe em linguagens. Já a política no sentido menor, rasteiro, é ainda mais distante: é quase sempre o estrago do convívio, o atropelo da ética, o descaramento do poder. A antiarte.

Daniel Piza,

03 de outubro de 2010 | 00h09

Seja como for, numa democracia, o modo como convivemos em sociedade tem relação com o modo como somos governados e permitimos que nos governem. Pensei muito nisso nos últimos meses, não só porque estamos em ano eleitoral, mas também porque decidi me mudar de apartamento e mais uma vez observei como somos prejudicados pela falta de método e de boa vontade. E uma coisa está relacionada com a outra: a desorganização incentiva o descompromisso, e vice-versa. O clima de bagunça favorece não os espontâneos, os libertários, mas os que gostam de tapear os outros e fugir dos deveres. Num país que se gaba de ser caloroso e alegre, o respeito ao outro é item de colecionador.

Fazer uma reforma de alguns meses é pior que atravessar o Drake, e falo depois de ter experimentado ambos. Saí do prédio onde morava, entre outros motivos, porque o condomínio se recusava a cumprir leis como a rampa de acesso para deficientes e idosos, faltava segurança - como comprovamos no final do ano, quando um sujeito subiu no muro e tentou quebrar nossa janela, apesar dos avisos - e o síndico não queria que as crianças brincassem no térreo porque poderiam ser atingidas por "guimbas" de cigarro acesas... Embarquei na aventura da mudança e só me deparei com novas loucuras - e olhe que hoje nem vou falar nas burrices cartoriais e bancárias. (Só vou levar o Brasil realmente a sério quando cartões não vierem com 11% ao mês de juros.)

Uma amiga diz ter a tese de que os funcionários se apegam à obra e por isso gastam o dobro de tempo e material previstos. Eu acho que o bordão "Reforma é assim mesmo" virou desculpa para o mau planejamento, os repetidos atrasos - de presença e de pagamento - e as lambanças gerais. Nem pedreiros nem seus chefes sabem quanto tempo levam para um serviço, arrumar e limpar à medida que o executam, executá-lo com capricho e rapidez (ou é bem-feito e demorado ou é malfeito e rápido ou, na maioria dos casos, é malfeito e demorado). Não se trata de errar por pouco ou dar azar (como os indefectíveis vazamentos, que logo recebem diagnósticos diversos); trata-se de não conseguir programar nem uma semana de trabalho com alguma precisão - imagine quatro meses. Em uma semana de Brasil, Descartes iria à loucura.

Outra praxe que tira do sério é a das empresas de telefonia, TV a cabo e mudança, que não realizam uma parte do trabalho e dizem para o consumidor "Acerta isso com o pessoal que vai lá". Então o sujeito chega e transfere sua linha de telefone até o prédio, mas não até os pontos de seu apartamento; conecta o mesmo pacote de canais e internet, mas se você quiser aumentar o número precisa chamá-los de novo; diz que precisa içar um móvel e só faz isso no mesmo momento se você "pagar por fora". Veja bem: são empresas líderes em seus segmentos, muito bem-sucedidas, e com essas práticas nada mais estão fazendo que um convite à propina. Não me esqueço, em outra ocasião, da imobiliária que disse que aceleraria o depósito do meu FGTS se eu desse um "a mais" para o parecer do técnico. Respondi que o vendedor esperasse o prazo.

No Brasil, fazer da forma certa sai mais caro e dá mais trabalho. Mas é assim que deve ser. Os governantes brasileiros, por sinal, dizem que não conseguem fazer reformas como a política e a tributária e não mudam substancialmente o quadro social, onde metade dos brasileiros vive na informalidade, sem esgoto e sem boa educação, porque "não tem jeito" (só jeitinho). Não deixam de ecoar essas pessoas que dizem que "é assim mesmo" e "acerta com o pessoal". É por isso que os brasileiros quase sempre se atrasam, deixam tudo para a última hora, tentam enrolar decisões ao máximo - e isso inclui o Supremo Tribunal Federal, que deixa para decidir na última semana de campanha sobre os fichas limpas (não decidiu) e a necessidade de dois documentos para votar (desautorizou completamente um documento oficial, o título de eleitor, por não ter foto). Não é apenas porque "a vida é dura" e "o trânsito é absurdo"; é porque é mais conveniente.

Eu poderia falar ainda do convívio brasileiro no campo das relações familiares e amizades, que tanto se concentram em espezinhar os defeitos menores e disfarçar as grandes frustrações, ou no meio cultural, onde a arte vive de patrocínio público e a crítica confunde análise com adjetivo mesmo quando elogia. Eu ainda poderia falar da vida corporativa, em que cada vez mais se controla o modo de ser (quanto menos opinativo, melhor) e se mede quantidade como qualidade ("Se quiser subir na vida, não pode sair cedo do trabalho"), induzindo ao carreirismo e ao estresse. Mas o leitor já entendeu. O que espero é que não conclua de tudo isto que temos a classe política que merecemos, que uma nação de tiriricas merece um Tiririca no poder...

Os que manipulam o dinheiro público e aparecem sempre em público têm o dever de dar o exemplo, de estar acima da média, não de reproduzir a ampla carência de método e ética. Até porque há muito mais exceções na sociedade do que entre os políticos, há muita gente que trabalha e paga impostos e não merece as opções eleitorais que tem. E mesmo os que merecem deveriam ser melhorados, não ratificados. É por isso que um liberal é inimigo do paternalismo: não porque a máquina estatal deva ter este ou aquele tamanho, mas porque o poder precisa ser constantemente vigiado e cerceado. Precisamos melhorar o relacionamento entre indivíduos e grupos neste vasto condomínio chamado Brasil, mas podemos começar cobrando melhor os síndicos.

Duas lágrimas. Para o cineasta Arthur Penn e o ator Tony Curtis, ambos americanos e ambos representantes de uma era em que o entretenimento não se via como algo distinto da cultura, como um passatempo logo esquecível. Tony Curtis esteve em muitos bons filmes, como Spartacus, de Kubrick, mas o que dele vai ser lembrado ad aeternum é a interpretação em Quanto Mais Quente Melhor, de Billy Wilder, contracenando com Marilyn Monroe e Jack Lemmon e protagonizando um dos finais mais engraçados da história do cinema. De Arthur Penn também se lembrarão muitas coisas boas, como Caçada Humana, O Pequeno Grande Homem, com aquela cena terrível do corpo pendurado, e aquele filme sobre Billy the Kid com Paul Newman. Mas qualquer diretor gostaria mesmo era de assinar Bonnie & Clyde, com Faye Dunaway e Warren Beatty, um filme ao mesmo tempo charmoso e desencantado, classudo e violento.

Por que não me ufano (1). Um leitor no blog defendeu outro dia "proibir judicialmente a publicação de determinados conteúdos que podem causar danos irreparáveis ao processo eleitoral", o que a "imprensa corporativa" (sic) chama de censura. Respondi: "Censura, sem sombra de dúvida. Em qualquer país sério o nome é esse. Se a matéria for de fato "reconhecidamente falsa, baseada em testemunho sem comprovação", o veículo de informação responderá judicialmente e será obrigado a se retratar e pagar indenização. Mas primeiro é preciso ocorrer o erro, o crime, para depois vir o julgamento - ao menos é o que dizem todas as Constituições democráticas. Agora, não consigo pensar em nenhum exemplo recente. Todas as notícias sobre escândalos surgidas em períodos eleitorais tinham base documental e testemunhal sólida. Foi assim com os aloprados, é assim no caso Erenice..."

Por que não me ufano (2). Vi, cabeceando de sono, o debate dos candidatos na quinta à noite. Tudo muito engessado e ensaiado. Marina Silva disse que procurou em sua campanha não o embate, mas o debate. Só que debate sem embate - verbal, educado, propositivo - não existe. Cada um mostrou que decorou o que os assessores disseram, lembrando aqui e ali "preciso sorrir", "preciso olhar para a câmera", etc. Pareciam que estavam gravando inserções no Horário Eleitoral, não dialogando entre si. Tanto é que lembramos apenas o que saiu um pouco do previsível: Dilma cometendo a gafe das "doações oficiais de campanha", Serra se irritando com Marina, Marina trocando palavras.

Não é que nada foi aprofundado: é que muita coisa não foi nem sequer mencionada. Não se falou nos temas quentes (aborto, Supremo, caso Erenice); Serra e Dilma nem sequer se dirigiram perguntas. Números e promessas foram exagerados como sempre. Mesmo propostas importantes como facilitar a contratação de empregados (Marina) ou reduzir impostos para os pobres (Plinio, irônico mas despreparado, e Serra) ou investir mais em saneamento (Dilma) não convenceram. Os eleitores já estão convencidos do que querem, e a eleição se tornou mais previsível que as de 1998 e 2006.

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