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Concreto e visionário

Waldemar Cordeiro, pioneiro da arte por computador, ganha retrospectiva

ANTONIO GONÇALVES FILHO , O Estado de S.Paulo

01 de julho de 2013 | 02h13

Agressivo, agitador, autoritário. Se fosse conhecido apenas por esses três adjetivos que começam com a primeira letra do alfabeto, o artista Waldemar Cordeiro (1925-1973) seria lembrado mais por ser um personagem revolucionário, formado na escola gramsciana, do que por sua contribuição às artes brasileiras. É preciso, portanto, ser justo e trocar os adjetivos. Antes de tudo, Cordeiro foi o pioneiro que introduziu a arte concreta no Brasil, não dependendo do desembarque do suíço Max Bill na 1ª Bienal de São Paulo (1951). Foi também o visionário que realizou as primeiras experiências artísticas com computadores no País - isso há mais de 40 anos, quando eles eram usados apenas pelos bancos e serviços de informação militares. Como homenagem a esse contestador nascido na Itália e brasileiro por adoção, o Itaú Cultural abre na quarta uma grande retrospectiva com 250 obras suas - inclusive algumas inéditas - , que ocupam três andares do instituto.

A mostra é ambiciosa, exigindo o trabalho de dois curadores, os críticos Arlindo Machado e Fernando Cocchiarale, para mapear o processo criativo de um artista múltiplo que foi também urbanista, arquiteto e paisagista - sua principal atividade profissional. A bailarina Analívia Cordeiro, uma das duas filhas do artista, lembra a propósito que o pai jamais participou de qualquer esquema de comercialização de sua obra - até porque não existia mercado de arte no Brasil quando ele se instalou aqui, em 1946,. Mesmo depois, continuou a manter distância ideológica de galeristas, por ser um comunista radical.

"Ele ganhava dinheiro com paisagismo, não com obras de arte", diz a filha. "Para lembrar, vamos montar um jardim ao lado do auditório do Ibirapuera, seguindo um esboço deixado por ele", revela.Não é a única novidade que Analívia anuncia. Mesmo sendo homenageado pelo curador Luis Pérez-Oramas com uma sala na última Bienal de São Paulo, Cordeiro tem muitas obras inéditas, que não foram mostradas nem mesmo em1986, na última retrospectiva dedicada ao artista. Guardadas por 27 anos, elas saem da casa de Analívia diretamente para a mostra do Itaú Cultural.

Os primeiros experimentos do artista com computador, por exemplo, estavam em estado lastimável - e não por negligência, mas pela fragilidade do material, cartões perfurados de um paleolítico IBM 360/44 da Faculdade de Física da USP, ao qual Cordeiro teve acesso graças ao físico italiano Girogio Moscari. Dele, saiu a série Beabá, conhecida como Conteúdo Informativo de Três Consoantes e Três Vogais Tratadas por Computador. Recuperadas pelo Itaú, assim como alguns desenhos e outros trabalhos em papel, essas obras serão exibidas na mostra. Dessas, a mais conhecida talvez seja A Mulher Que Não é BB (1971), que faz surgir por meio de combinações de dígitos (algoritmos) a imagem de uma menina asiática, queimada por uma bomba de napalm americana durante a Guerra do Vietnã.

Em plena ditadura militar, Cordeiro fazia uma arte política explícita, criticando o governo americano, aliado do regime brasileiro. Dois anos antes de sua morte, ele chegou mesmo a organizar na Faap, em 1971, a primeira exposição de "arteônica", para a qual convidou artistas e críticos, tentando aglutinar realizadores interessados em alta tecnologia. Essa combinação entre matemática e informação estética, lembra o curador Arlindo Machado, já tinha seus expoentes nos anos 1960. O filósofo alemão Max Bense (1910-1990), cujo pensamento estético foi marcado pela matriz informacional, foi uma de suas principais influências, lembra o curador. Outro foi o filósofo, físico e engenheiro francês Abraham Moles (1920-1992). "A exposição é uma espécie de arqueologia da arte feita por computador, mas mostra também o processo que o levou a dar forma digital a retratos 'pontilhistas', como o da vietnamita."

É esse processo, aliás, que interessa ao outro curador da mostra, o crítico Fernando Cocchiarale, responsável pelos trabalhos anteriores a essa fase. Ele reuniu raros exemplares da arte concreta do histórico grupo Ruptura (1952), do qual Cordeiro foi fundador e principal teórico - obras de Charoux, Sacilotto, Judith Lauand e outros. "Não sigo uma cronologia, mas uma sequência processual, criando conexões entre os trabalhos", explica. Compreensível para uma obra baseada na Gestalt.

WALDEMAR CORDEIRO: FANTASIA EXATA

Itaú Cultural. Avenida Paulista, 149, tel. 2168-1776.

3ª a sáb., 9h/20h; sáb. e domingo, 11h/20h.

Grátis. Até 22/9.

Abertura quarta, para convidados.

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