Arquivo Estadão
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Concertos contemporâneos ganham espaço no Teatro São Pedro

Casa na capital quer mostrar um panorama da criação camerística brasileira dos séculos 20 e 21 em 26 concertos ao meio-dia; veja

João Marcos Coelho, O Estado de S. Paulo

25 de fevereiro de 2015 | 02h05

Pela primeira vez, São Paulo institui uma série de concertos durante o ano inteiro dedicada à criação musical brasileira dos séculos 20 e 21. O jornalista Irineu Franco Perpétuo montou repertórios para 26 concertos distribuídos ao longo do ano, em horário inovador - terças-feiras ao meio-dia. Aplausos não só por ter optado decididamente pela música do nosso tempo - mas por ter se concentrado na em geral marginalizadíssima produção musical brasileira.

O conceito é claro: mostrar um panorama o mais amplo possível da nossa criação camerística, "repertório imenso que tem pouquíssimas oportunidades de ser ouvido nas salas de concerto", diz o texto do programa do concerto desta terça.

Destribalizar a música contemporânea é missão que deveria integrar o conceito de cada teatro ou sala de concerto no Brasil. Num momento muito fértil, onde várias orquestras encorpam-se e parecem decolar em definitivo rumo ao profissionalismo, deve-se privilegiar a criação brasileira - os croatas que cuidem, por exemplo, dos compositores croatas. Nós precisamos cuidar de nós mesmos, regrinha simples que não pode ser ignorada.

A pequena sala do São Pedro recebeu bom público para assistir a uma hora de música entusiasmante. Utilizar cantores da Academia do teatro e os músicos da orquestra é abrir portas inéditas para jovens talentos e ao mesmo tempo disseminar pela "prata da casa" o gosto de lidar com o novo.

Ao concerto. Quatro obras, três compositores. As duas do catarinense Edino Krieger - Sonetos de Drummond, para mezzo-soprano e piano, e a Balada do Desesperado, para barítono e piano - mostram dois lados de seu grande talento para a música vocal. A escrita melodicamente fácil dos sonetos favoreceu a mezzo Caroline Jadach, que mostrou seu belo timbre e potência vocal também em Cal Vima, do compositor carioca Ronaldo Miranda, presente ao concerto. A ambiciosa balada é obra de fôlego que mereceria ser ouvida mais amiúde nas salas de concerto, e teve boa interpretação de Eduardo Fujita.

O momento culminante do concerto foi Sumidouro, de Guerra-Peixe, para barítono, violino, violoncelo e piano (Ariel Sanches, Fabrício Rodrigues e André dos Santos, todos da Orquestra do São Pedro). Ano passado o país deveria ter comemorado o centenário de nascimento de Guerra-Peixe. Ficou devendo. Ontem, ele recebeu um justo e entusiasmado tributo nesta execução empenhada do ciclo em cinco partes em que o compositor demonstra sua alquimia particular entre popular e erudito.

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