Comunicação da plateia se faz no deleite dos versos

Análise: Lauro Lisboa Garcia

O Estado de S.Paulo

03 de março de 2012 | 03h08

Toda vez que Chico Buarque estreia um show, há cronistas de plantão para dissertar sobre os chavões do comportamento das mulheres diante do ídolo. Nesse Chico, com roteiro recheado de canções interpretadas no feminino (O Meu Amor, Teresinha, Ana de Amsterdam, Anos Dourados, A Violeira, Sob Medida) e sobre personagens tais (Nina, Essa Pequena, Geni, Tereza da Praia, Sinhá), então, é prato cheio.

O velho Francisco derrama todo o sentimento e berros rasgados de "lindoooo" enchem o ar já em Desalento, quando ele canta "corre e diz a ela que eu entrego os pontos". Uma voz masculina põe para fora um "gêniooo". Não são só elas: muitos homens também são flagrados num choro bandido em vários momentos. A sequência que começa com Tipo Um Baião e chega a Teresinha é de grande comoção, emendada numa outra que tem a obra-prima Valsa Brasileira e se arroja em Geni e o Zepelim, com uma força absurda.

Chico é bem diferente de Carioca. E também o comportamento da plateia, que demonstra discretamente conhecer as canções novas, mais ricas do que a do álbum anterior. Ponto para a estratégica veiculação via internet.

Em casas como essa em que se vende bebidas e o público tende a socializar mais é mais difícil manter a concentração. É claro que sempre tem a executiva meio sem noção, achando que o show é uma extensão da happy hour. Porém, desta vez até a ansiedade por estar diante do mito, num momento de aparição rara, parece mais controlada.

É tamanho deleite apreciar a beleza de cada verso que a interferência que muitos se permitem é um suspiro, um arrepio. A comunicação é velada num silêncio tal, que em certos momentos, como na canção Sem Você 2, dá para ouvir "uma lágrima cair no chão".

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