Compulsão sexual inspira autor e pseudônimo

Autores que escrevem com pseudônimo tendem a desenvolver uma relação esquizofrênica com seus alter egos. Isso tem sido até explorado como tema de romances de terror. Mas o Evan Hunter, autor de best sellers como Sementes da Violência e A Última Dança e roteiros como o de Os Pássaros, filmado por Alfred Hitchcock, é pelo menos original. Ele acaba de escrever um romance em co-autoria com seu pseudônimo mais famoso, Ed McBain, que assina os bem-sucedidos policiais que têm como cenário uma delegacia nova-iorquina, o 87º distrito. Hunter e McBain, juntos, escreveram 95 romances, com mais de 100 milhões de exemplares vendidos. Agora, juntando forças, ele/eles estão lançando nos EUA o romance Candyland: a Novel in Two Parts. O romance em duas partes é assim: a primeira metade, mais psicológica, é de Hunter; MacBain encerra com uma história policial. Embora diferentes, dizem as primeiras críticas, as duas partes funcionam. O tema é polêmico: a compulsão sexual que vira doença e vício tão poderoso e degradante quanto a cocaína ou o álcool. O protagonista do livro, um bem-sucedido e atraente arquiteto de Los Angeles chamado Benjamin Thorpe, viaja muito por causa de projetos e aulas em universidades. Despistando a esposa - Desta vez ele vai para Nova York. Seu trabalho anda meio abalado por causa de sua obsessão por sexo. Ele tem um livrinho de telefones cuidadosamente codificado para evitar os olhares de sua mulher, com quem é casado há 22 anos. Para não se sentir angustiado, ele usa estudantes com quem faz sexo por telefone, tem serviços de acompanhantes e garotas de programas, fora as mulheres que encontra em bares. Além disso, há toda mulher de quem se aproxima, dos 20 aos quase 60. Chegando em Manhattan, Thorpe (um personagem sob medida para ser vivido por Michael Douglas, que já se tratou da mesma compulsão) está com problemas. A noite é quente e chuvosa, a ruivinha que o atraiu é um beco sem saída, sua garota habitual do disque-sex manda-o passear e uma visita a um bordel chamado XS Salon é desastrosa. Evan Hunter deixa a cena e Ed McBain assume. Três tiras, inclusive a especialista em crimes sexuais Emma Boyle, investigam o estupro e assassinato de uma funcionária do XS Salon. McBain, como de hábito, entrelaça as vidas dos detetives e a investigação. Diz o crítico do jornal USA Today que "os leitores não se esquecerão de Thorpe aprisionado em seu pesadelo de Casanova". Evan Hunter está com 74 anos e quando lhe perguntam qual a diferença entre escrever com seu nome e como Ed McBain, ele explica: "Os mistérios de McBain são mais fáceis de escrever e mais divertidos de criar que os complexos romances de Hunter. Mudar de estilo de escrever é o mesmo que um ator faz ao interpretar um papel diferente." Mas o escritor, que mora em Connecticut e vai só duas vezes por semana para Nova York, após ter sofrido ataques cardíacos em 1987 e 1997, reclama: "Não sou bem aceito entre os escritores de policiais pois eles desconfiam que estou relaxando quando sou Ed McBain. E não sou bem aceito na comunidade literária porque escrevo romances de mistério". A propósito, Evan Hunter é um nome inventado. Ele se chama realmente Salvatore Albert Lombino, nome nada promissor para autor best seller.

Agencia Estado,

23 de janeiro de 2001 | 11h49

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