Comprar, verbo intransitivo

Nos últimos dias, fomos bombardeados com estatísticas e reportagens alarmantes sobre pais angustiados por não poder gastar o mesmo que gastaram no ano faz de conta de 2014 no dia da criança – em letras minúsculas. Não acredito em dia da criança em maiúsculas. Não há celebração da infância (ou da maternidade e paternidade) que careça de compras. Todos sabemos que são datas para movimentar o comércio e nada há de errado em aquecer a atividade econômica. Mas, no caso das crianças, que não compreendem a comercialização do afeto, é triste ver pais se desculpando por não poder comprar algo como se isto represente uma falha em demonstrar dedicação aos filhos. Falar de dinheiro com os filhos parece quase tão difícil quanto falar de sexo.

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

12 Outubro 2015 | 02h00

Num distante longo feriado em que visitava uma família querida na costa oeste americana, me surpreendi com a naturalidade de uma menina de oito anos, quando perguntei: “Qual é o plano para amanhã?”. “Compras”, foi a reposta. A menina não me disse que precisava de um casaco de inverno ou um livro para a escola. É possível que nada lhe faltasse no momento, mas o programa seria comprar, verbo intransitivo. Minha surpresa era explicada pelo choque de cultura e geração. Crescendo no Rio de Janeiro, o verbo comprar como uma atividade, tal como ir à praia ou ao teatro, não era usado por crianças. Não me ocorre nenhuma compra que tenha marcado minha infância.

Lembro especialmente de uma rotina diária, quando puxava a mão de uma outra menina para atravessar a rua, no caminho entre minha casa e a escola pública em Manhattan, na tentativa de distrair sua atenção de uma maldita loja. A loja continua lá e praguejo em silêncio cada vez que passo na porta. O nome da loja, Infinity, reforçava a batalha sem fim entre a mãe com orçamento mais do que finito e a pressão das colegas na escola. Como descreveu o New York Times, era uma loja para “fashionistas que ainda brincam de Barbie”. Arre! A menina de então agora é mãe e enfrenta seu primeiro dia da criança no Brasil com alguma perplexidade, já que não conheceu tal efeméride comercial, crescendo nos Estados Unidos.

Um jornalista americano que foi um dos inventores da cobertura sobre finanças pessoais lançou, este ano, o livro O Oposto de Mimados: Criando Filhos Generosos, Bem Fundamentados e Inteligentes Sobre Dinheiro. Ron Lieber começou a ser emparedado pela própria filha de três anos com perguntas sobre dinheiro que o faziam engasgar. Ele se deu conta de que uma das maiores ofensas que se pode fazer a mães e pais é descrever seus filhos como mimados. O verbo é passivo. Mimados por quem?

A filha de Lieber mantém três jarros de vidro em casa, com os rótulos: gastar, economizar, doar. Doar? A classe média americana, com ou sem recessão, doa mais proporcionalmente à sua renda para causas do que os ricos do país.

Lieber argumenta que as crianças percebem o aperto de cintos muito antes de pais tocarem no assunto. E o segredo só assusta mais porque as decisões não dependem delas. Mesmo se a família não está sendo atingida pelo desemprego ou por uma perda significativa de renda, Lieber recomenda, desde cedo, distinguir entre desejo e necessidade. A criança precisa de uma bota de chuva para ir à escola. Qual o preço médio de uma bota de chuva? Bem, se ela quer uma bota de grife, que economize a mesada e pague a diferença. Ele considera a mesada uma aliada na educação sobre autocontrole e prioridades, mas condena o pagamento às crianças para executar tarefas em casa.

Nos anos da bolha consumista no Brasil, comprar foi se tornando um verbo intransitivo. Como afirmou um dos fundadores do PT, Cesar Benjamin, num ótimo ensaio na revista Piauí, “Compre mais e vote em mim, foi tudo o que Lula disse, durante anos, ao povo brasileiro”. Não chega a surpreender que pais recém-desempregados vejam o impedimento para comprar como um fracasso pessoal.

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