Comprando roupas

Desde quando se conheceram, meu amigo e sua futura mulher concordaram que não se deixariam levar pela propaganda e ignorariam datas como o dia dos namorados, Dia das Mães, Dia dos Pais. Isso não significava que não gostassem de dar e receber presentes. Eram pródigos em gestos de carinho e demonstrações de amor entre eles e com os amigos, mas obedeciam a um ritmo próprio, íntimo, específico de cada relacionamento, apartados das grandes e obrigatórias efusões impostas pelo mercado.

Sérgio Telles, O Estado de S.Paulo

18 de agosto de 2012 | 03h11

Esse acordo funcionou até a época em que os filhos foram para a escola. Por que os coleguinhas davam presentes do Dia das Mães e dos Pais e eles não? - perguntavam perplexas as crianças, sem entender tal anomalia. Meu amigo e a mulher repensaram a questão e concluíram que não deviam ser radicais em suas convicções. Eram grandes as pressões do consumo e seus filhos não deveriam ser penalizados pelas escolhas ideológicas que fizeram. Não era um grande problema, em nada abalava seus princípios mais prezados e passaram a comemorar o dia dos pais, das mães e outras efemérides marcadas pelo calendário escolar dos filhos.

Isso ocorrera tempos atrás. Relembrava tudo isso agora, enquanto tomávamos café no shopping, onde nos encontramos por acaso. Estava ali com a mulher para comprar as roupas que ela lhe daria de presente no dia dos pais. O problema é que ultimamente lhe tem sido difícil comprar roupas. Ficava pouco à vontade com os vendedores e vendedoras. Eles logo perguntavam seu nome e passavam a lhe tratar como se fossem velhos conhecidos, amigos de infância. Ficava irritado com aquela atitude artificial e forçada. Se imaginavam que daquela forma ficaria relaxado e abriria com maior facilidade os cordões de sua bolsa, estavam completamente enganados. O efeito que lhe produzia era o oposto. Fazia-o sentir-se bobo, um otário sendo enrolado por espertalhões. O pior é que não adiantava ir para outra loja, pois todas usavam essa mesma técnica, o que o fazia pensar que ela devia ser muito eficaz com a maioria.

Se ele se sentia desconfortável na loja de roupas por esse motivo, acreditava que por razões diversas esse sentimento era compartilhado com muitos outros, homens e mulheres. Percebia que alguns compravam a primeira coisa que lhes caía nas mãos e saíam correndo da loja. Outros passavam horas escolhendo peças, numa interminável indecisão que enlouquecia - benfeito! - os vendedores. E tinha ainda aqueles que compravam compulsivamente suas roupas em grandes quantidades, deixando-as nos armários, sem nunca usá-las.

Meu amigo tinha elaborado uma teoria sobre o assunto. Como vivemos sob a tirania da beleza, todos se veem obrigados a ter o corpo em ordem. As cirurgias estéticas consertam as evidências da pouca generosidade com que a natureza nos tratou, bem como eliminam as marcas do envelhecimento. A televisão e as revistas mostram figuras jovens e belas a venderem produtos, cuja compra supostamente nos deixaria tão jovens e belos quanto elas. Uma ficção na qual somos levados a acreditar e que se mantém até a ocasião em que vamos comprar uma roupa.

Nesse momento, cada um é obrigado a confrontar a ilusão de um corpo ideal, alimentada pela propaganda, com a realidade concreta de seu próprio físico. Fica então patente o descompasso, que pode ser grande, entre a aparência que gostaríamos de ter e aquela que temos de fato, a distância entre o ideal e o real. A anoréxica, que se recusa a comer para não engordar, dando com isso mostra da impossibilidade de reconhecer a realidade de seu corpo perigosamente à beira da inanição, leva ao extremo essa dificuldade que, com maior ou menor intensidade, é bastante disseminada. Assim, a pessoa vê determinada peça na vitrine da loja e se dispõe a comprá-la a partir da imagem corporal que tem de si mesmo. Ao provar a roupa, se defronta com a concretude de sua compleição, que poderá ou não ser compatível com a vestimenta escolhida.

Sua mulher, que até então ouvia calada a conversa, disse que nesse instante o papel do vendedor ou vendedora é fundamental. Ele pode reforçar a negação da realidade, dizendo ao comprador aquilo que ele quer ouvir, ou seja, de que a roupa lhe cai muito bem, que ficou ótima em seu corpo. Ou pode dizer a verdade, ajudando-o a encontrar algo mais condizente com as características de seu físico. O problema é que os vendedores não são confiáveis, não estão prioritariamente preocupados com a adequação da roupa ao físico do comprador. Eles querem vender e ganhar a comissão. Talvez aí residisse o diferencial entre uma loja que conquista fregueses fiéis e outra que os perde - a instrução que dão a seus vendedores para empurrar de qualquer jeito a mercadoria ou a ajudar o comprador a encontrar uma peça adequada à sua realidade, mesmo que isso aborte a desejada venda.

Disse-lhes que concordava inteiramente com suas opiniões. Desde que estávamos discorrendo sobre a conduta dos compradores de roupas, perguntei-lhes se não havíamos esquecido um tipo oposto aos que até então examinávamos. Referia-me às pessoas "sem noção", as vítimas da moda, aquelas que indiscriminadamente acreditam nas criações mais bizarras dos figurinistas e saem pelas ruas sem atentarem para o ridículo com o qual se cobrem.

Meu amigo respondeu que não era um caso muito diferente dos que havíamos discutido. Nele seria apenas mais grave o grau de negação do próprio corpo ou a fragilidade psicológica que levava tais pessoas a se curvarem sem crítica frente à imposição dos vendedores.

A conversa já se espichara demais e eu ainda ia comprar minhas roupas. Despedi-me dos dois e, alertado pela conversa, saí preocupado, pensando como iria encarar a disparidade entre a secreta exigência apolínea de um corpo ideal e a dura realidade que o espelho e a numeração das roupas me obrigariam a aceitar.

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