Complexo da Maré pede passagem no palco

Há três anos o coreógrafo IvaldoBertazzo desenvolve um belo trabalho com crianças e adolescentesque vivem no Complexo da Maré, no Rio. Todos os dias, 62 jovens,entre meninos e meninas, aprendem a executar movimentoscoreográficos, adquirem consciência corporal e aprendem a dançar, cantar e interpretar. Tudo com o intuito de inserir essa moçadana sociedade e oferecer base para resgatar o Teatro MusicalBrasileiro. Como resultado de dez meses de trabalho duro,estréia amanhã, no Sesc Tijuca, o espetáculo Dança dasMarés, com roteiro assinado pelo médico Drauzio Varella emúsica composta especialmente pelo grupo Uakti. O espetáculochega a São Paulo no dia 9 de outubro e fica até o dia 27."Coube ao Drauzio colher depoimentos dos própriosmeninos sobre o rito de passagem da infância para a adolescência, todas as perdas e ganhos dessa fase da vida", diz Bertazzo.Para executar os movimentos, o diretor separou os meninos emgrupos menores, diferentemente dos espetáculos anteriores, comoMãe Gentil e Folias Guanabara, nos quais a coreografiase desenrolava em grandes blocos. Em cena, situações universais,como dúvidas e inseguranças vivenciadas por meninos e meninas detodas as classes sociais, com destaque para a sexualidade e osaltos e baixos do dia-a-dia."Trabalhamos mais os gestos, que estão mais refinados etrouxemos dois professores de música e dança indiana, vindos deNova Délhi, dedicados ao trabalho da subdivisão rítmica, umprocesso similar ao dos batedores de lata." O grupo Uakticontribuiu não somente com a trilha sonora do espetáculo, mastambém na realização de workshops com os meninos a fim deensinar música e a elaboração de instrumentos musicais. EmDanças das Marés, tubos de PVC misturam-se às sonatas deMozart.Camila Fabrini foi a responsável pela criação daestrutura oval para o palco. As paredes são inclinadas, umgrande pêndulo e diversos painéis de dez metros quadrados,feitos pelos integrantes do Corpo de Baile da Maré sob aorientação do artista plástico Deneir, estabelecem o diálogoentre espaço e dança. O figurino foi assinado pelo carnavalescoChico Spinosa.Projeto - O trabalho de Ivaldo Bertazzo na regiãoconhecida como Complexo da Maré é realizado em parceria com aONG Ceasm e patrocínio da Petrobras. A proposta do coreógrafo édar seqüência a um projeto antigo, que nasceu na década de 70, oCidadão-Dançante - inserir meninos carentes na sociedade comdignidade, por meio da arte, abrindo caminho para a formação deartistas e profissionais da área."A partir das noções que recebem, os integrantes dogrupo aprendem a respeitar o espaço dentro e fora dos ensaios eainda buscam o refinamento dos gestos. Exigimos muito dessaturma: eles têm ensaios - sete horas aos sábados e domingos equatro durante semana - e já sabem transmitir ao público aemoção e sensações exigidas pelo texto." Os integrantes recebematendimento médico e psicológico, contam com apoio de umaassistente social, vale-transporte e uma bolsa de R$ 200,00mensais.A proposta do coreógrafo é fazer com que esse corpo debaile leve os conhecimentos adquiridos a outros grupos, que setransformem em multiplicadores. É, também, de acordo com odiretor, um incentivo para a formação de profissionais técnicospara as artes cênicas. "Não prometo a eles sucesso es simmostrar-lhes todo o processo de trabalho, a necessidade deestudar e dedicar-se para tornar-se um bom profissional."

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