Complexidades na série Premonição

Foi há 11 anos. O veterano de Arquivo X, James Wong, acreditando que entre o Céu e a Terra existem mais coisas que a nossa (vã?) filosofia não explica, bebeu na fonte de Ingmar Bergman e criou a série Premonição. Mais de 40 anos antes, Bergman havia imaginado a morte, em pessoa, num jogo de xadrez com cavaleiro medieval, em O Sétimo Selo. O desafio do cavaleiro era estender a duração da partida. O de Wong era desenvolver um filme em torno de uma ideia única. Jovens escapam de morrer num acidente aéreo. A morte não se contenta e aparece no encalço de cada um deles.

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

23 de setembro de 2011 | 03h09

Premonição 2, 3, 4. Em todos, subverte-se a luta pela sobrevivência. Os filmes apostam nas diferentes formas de morrer. Elas se constituem na própria razão de ser de Premonição. O 5, que estreia hoje, muda um pouco as coisas. A Warner, associada à produtora New Line, havia anunciado que o 4 seria o último, mas voltou atrás. O 5 não é apenas em 3-D. Fecha um ciclo - os adolescentes do primeiro filme embarcavam num voo para Paris. A capital francesa é, de novo, o destino final do par de protagonistas. Final Destination.

Nos créditos finais, projetam-se imagens do primeiro filme - e das brutais mortes anteriores. A grande novidade, porém, agora é outra. Os jovens do filme são trabalhadores que, logo na abertura, estão saindo para um retiro organizado pela empresa. Viagem de ônibus, com direito a travessia de ponte pênsil. No ônibus, o protagonista tem a premonição de que a ponte vai despencar. Salvam-se oito integrantes do grupo, mas é preciso acreditar na advertência do misterioso legista. A morte não gosta de ser enganada.

Steven Quale é o diretor. Premonição 5 segue o que parece o figurino. Preparativos, acidente e a morte que vem buscar os sobreviventes. Um, dois, três... O próprio legista levanta uma questão relevante - sempre resta a alternativa de tentar 'negociar' com a morte. A proposta que fica no ar é de assassinato, e termina encampada por um dos integrantes do grupo (o mais fraco moralmente?). A ideia é matar alguém e oferecer o cadáver à morte, beneficiando-se do restante de tempo de vida da 'vítima'.

Ao terror, superpõe-se outro horror - o do assassinato. Você se lembra - desde o primeiro filme, o garoto a quem vem a premonição fica sempre sob suspeita da polícia, que foi se acirrando após o 11 de Setembro. O policial de Premonição 5 sabe que Nicholas d'Agosto não é nenhum terrorista, mas tenta entender o que está ocorrendo. É o que faz do quinto filme o mais interessante da série toda. Há algo próximo da densidade na ligação de Nic com a namorada. Ela sabe que o sonho dele é fazer um estágio como chef na França, como no primeiro filme. O desfecho volta ao avião. A morte foi enganada, está satisfeita? O espectador, provavelmente, sim. A superposição de gêneros - policial sobre terror - cria efeitos interessantes e até complexos. Como sempre, é engenhoso acompanhar a preparação das mortes. Mais engenhoso é verificar que a ética cabe até em Premonição.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.