Competir e educar, o desafio do festival

Avaliar objetivos é questão que se impõe nos 31 anos da mostra de Joinville

HELENA KATZ , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

23 de junho de 2013 | 02h22

Pela primeira vez, em seus 31 anos de história, o Festival de Dança de Joinville fez uma coletiva de imprensa em São Paulo. Celebrando a sua parceria com o Itaú Cultural, anunciou ontem a sua expansão para a cidade, com duas iniciativas: no dia 4 de agosto, no Auditório Ibirapuera (gerido pelo Itaú Cultural), apresentará parte da sua Noite dos Campeões; e na sede da Avenida Paulista, Cecília Kerche, uma das quatro curadoras artísticas do festival, trará a Conferência Dançada que terá acabado de mostrar em Joinville.

Esta nova parceria constitui um dado relevante. Como o Itaú Cultural já apoia festivais como Flip e de Teatro de Curitiba, não é imediata a compreensão das razões que fizeram a instituição ligar a sua marca a um festival como o de Joinville, caracterizado por ser uma competição entre escolas de dança que pouco tem contribuído para mudar o cenário do ensino de dança no País. Eduardo Saron, diretor do Itaú Cultural, explica: "A escala que este festival tem nos faz querer oferecer a nossa inteligência para aprofundarmos uma parceria no que diz respeito à formação, uma questão proeminente para a dança".

Saron refere-se aos números que Joinville torna públicos. Afinal, trata-se do "maior festival de dança do mundo, segundo o Guinness de 2005" - dado que se repete no material que divulga. Em 2013, serão 6.500 participantes, entre estudantes das escolas concorrentes e profissionais que dão aulas, fazem parte dos júris e dos grupos que não concorrem. O festival vai de 17 a 27 de julho, a competição ocorre em um ginásio de 4 mil lugares (que tem ocupação média de 95%, segundo Ely Diniz, presidente do Instituto Festival de Dança de Joinville), mas o número que entusiasma Saron são as 230 mil pessoas anunciadas como as que assistem ao conjunto de atrações do evento. (Não vale a pena entrar aqui em considerações a respeito dessa aritmética, imprecisa por não ser possível definir que porcentual desses 230 mil não se refere a pessoas que estão em diversas dessas atividades.)

"Será um aprendizado mútuo porque o Festival de Joinville produz uma fotografia do Brasil que nos permite aprofundar as questões sobre formação. Ele é o maior painel de dança do Brasil", defende Saron, que nunca esteve na mostra.

Para Ely Diniz, seu presidente, o festival tem se renovado. "Ao final de cada edição, nos reunimos por 2 dias para discutir em que precisamos avançar. Há mais de 10 anos, ficou claro que a parte didática é fundamental porque mais de 70% dos participantes têm menos de 18 anos." Essa percepção se traduz no fato de que o público que vier para a Noite de Gala receberá um material explicativo das suas duas coreografias: Les Sylphides, com a Escola do Teatro Bolshoi no Brasil, e a Sagração da Primavera, de Olga Roriz, com o Balé Guaira.

O que parece unir as duas instituições nessa nova associação é a questão da formação. Do orçamento de R$ 4,5 milhões para 2013, o Itaú Cultural entra com R$ 750 mil. Mas existem ações concretas, que poderiam ter sido tomadas pelo festival muito antes da nova parceria. Exemplo 1: praticar o rigor terminológico com a multidão de estudantes que lá se reúne, identificando que os exercícios de 5 minutos que eles dançam com o objetivo de ganhar a competição são "coreografia de festival", explicando a sua diferença para o que, em dança, se chama de coreografia. Exemplo 2: aumentar o tempo da peça a ser inscrita para 20 minutos, buscando formar plateias, coreógrafos e bailarinos para a dança. Esta seria uma ação de alcance exponencial, mas, evidentemente, mexeria de forma radical com o aspecto comercial que sustenta hoje o evento.

Nada nos impede de sonhar que um dia não muito distante o Festival de Joinville venha a oferecer a seus 6.500 participantes a oportunidade de, ao mesmo tempo, competir e educar-se em dança. A potência dessa associação explodiria boa parte do que hoje o impede de cumprir um papel histórico (para além das cifras numéricas, claro) na dança do Brasil.

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