Compare as traduções da obra de Gustave Flaubert

Transposições foram feitas pelo português Adolfo Casais Monteiro e pelo brasileiro Samuel Titan Jr

03 de outubro de 2009 | 16h00

Trechos extraídos da tradução do romance A Educação Sentimental, de Gustave Flaubert, feita pelo português Adolfo Casais Monteiro e pelo brasileiro Samuel Titan Jr.

 

Samuel Titan Jr. - Capítulo III da Primeira Parte

Mulheres displicentemente reclinadas em caleças, o véu flutuando ao vento, desfilavam diante dele, ao passo firme dos cavalos, com um balanço insensível que fazia estalar os couros envernizados. As carruagens tornavam-se mais numerosas e, diminuindo a marcha a partir do Rond Point, ocupavam toda a via. Crinas ao lado de crinas, lanternas contra lanternas; os estribos de aço, os freios de prata, as fivelas de cobre salpicavam aqui e ali um ponto luminoso entre as calças de montaria, as luvas brancas e as peles que pendiam sobre o brazão das portinholas. Frédéric sentia-se perdido num mundo longínquo. Seus olhos erravam sobre as cabeças femininas; e vagas semelhanças faziam-no lembrar a senhora Arnoux. Ele a imaginava em meio às outras, num daqueles pequenos cupês parecidos ao cupê da senhora Dambreuse. Mas o sol se punha e o vento frio levantava re demoinhos de poeira. Os cocheiros encolhiam o queixo por cima da gravata, as rodas começavam a girar mais rápido, o macadame rangia; e todas as carruagens desciam a trote solto pela longa avenida, roçando-se, ultrapassando-se, apartando-se uma das outras, finalmente se dispersando na praça de la Concorde. Por trás das Tulherias, o céu ganhava a cor das ardósias. As árvores do jardim formavam duas massas enormes, violáceas no topo. Os bicos de gás se acendiam; e o Sena, esverdeado em toda sua extensão, rasgava-se em reflexos de prata contra os pilares das pontes.

 

Adolfo Casais Monteiro - Capítulo III da Primeira Parte

Mulheres indolentemente reclinadas em caleches, com véus flutuano ao vento, desfilavam a seu lado, ao passo firme dos cavalos, com um balouçar insensível que fazia gemer os couros envernizados. As carruagens tornavam-se mais numerosas e abrandavam a marcha depois de Rond-Point, ocupando toda a largura da vida. Crinas ao lado de outras crinas, lanternas ao lado de outras lanternas; os estribos de aço, os freios de prata, as fivelas de cobre, destacavam-se como pontos luminosos entre os calções curtos, as luvas brancas e as peles que pendiam sobre os brasões das portinholas. Frédéric sentia-se perdido num mundo longíquo. Os seus olhos iam de uma cabeça feminina a outra; e vagas semelhanças faziam-no pensar na Senhora Arnoux. Imaginava-a, no meio das outras, num desses pequenos cupês, semelhantes ao da Senhora Dambreuse. Mas entardecia, e o vento frio levantava turbilhões de poeira. Os cocheiros encolhiam o queixo sobre as gravatas, as rodas giravam mais depressa, o macadame chiava; e todas as equipagens desciam a trote largo a longa avenida, quase de tocando, passando umas à frente das outras, afastando-se, para depois, na Praça de la Concorde, se dispersarem. Por trás da Tulherias, o céu tomava a tonalidade das ardósias. As árvores do jardim formavam dias massas enormes, de topo violáceo. Acendiam-se dos bicos de gás; e o Sena, esverdeado em toda a sua extensão, dilacerava-se em reflexos de prata de encontro aos pilares das pontes.

 

Samuel Titan Jr. - Capítulo IV da Primeira Parte

- Parem de aporrinhar com essa tal de realidade medonha! O que é a realidade? Uns veem tudo em negro, outros em azul, a multidão não vê nada. Nada é menos natural que Michelangelo, nada é mais poderoso! Essa preocupação com a verdade exterior denota é a marca da baixeza contemporânea; e, do jeito que as coisas vão, a arte vai virar uma mixórdia qualquer, inferior à religião quanto à poesia, inferior à política quanto ao interesse. Ninguém vai alcançar os fins da arte - pois a arte tem fins, isso mesmo! -, ninguém vai nos causar aquela exaltação impessoal com obras mesquinhas, pouco importam as finezas do acabamento. Vejam os quadros de Bassolier, por exemplo: tudo é gracioso, bonitinho, certinho, e ainda por cima não é pesado! Dá vontade de meter no bolso, levar para uma viagem! Os notários pagam vinte mil francos por uma ideia que não vale um vintém. Mas sem ideia, nada de grandeza! Sem grandeza, nada de beleza! O Olimpo é uma montanha! Nenhum monumento é mais ousado que as Pirâmides! Mais vale a exuberância que o bom gosto, mais vale um deserto que uma calçada, mais vale um selvagem que um cabeleireiro!

 

Adolfo Casais Monteiro - Capítulo IV

- Deixem-me em paz com essa medonha realidade! Que quer isto dizer, a realidade? Para uns é negra, para outros é azul, para a multidão é estúpida. Nada menos natural do que Miguel Ângelo, e nada mais forte! A preocupação com a verdade exterior é um sinal da baixeza contemporânea; e, a caminhar assim, a arte acabará por tornar-se coisa reles, abaixo da religião, em poesia, e abaixo da política, em interesse. Não se conseguirá alcançar a sua finalidade - sim, a sua finalidade! - que é provocar em nós uma exaltação impessoal, com pinturinhas, apesar de todas as sutilezas de execução. Vejam um quadro de Bassolier, por exemplo: é bonito, agradável, limpinho, não é pesado! Pode trazer-se no bolso, e levar uma viagem! Os notários dão vinte mil francos por isso, que não tem dez réis de ideia; mas, sem a ideia, não se faz nada de grande! Sem grandeza, não há belo! O Olimpo é uma montanha! O monumento mais grandioso serão sempre as Pirâmides. Vale mais a exuberância do que o gosto, o deserto do que um pedaço de rua; e um selvagem do que um cabeleireiro!

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