Companhia ensina dança a crianças do interior

Denis, como todo garoto de 12 anos,era fanático por futebol até descobrir uma nova paixão: a dança.Aluno do Núcleo de Dança da pequena cidade de Votorantim,interior de São Paulo, conheceu a arte dos movimentos e gestosapós uma oficina realizada pelo pessoal da Quadra Cia. de Dança,que coordena o Núcleo há dois anos com a Secretaria Municipal deCultura. "Quando fiz a oficina achei muito legal, gostei edecidi trocar o futebol pela dança", conta. O garoto integra uma das turmas que dividem as 272crianças, de 7 a 13 anos, que assistem aulas semanalmente nocentro cultural da cidade. A garotada veio da periferia, semmuito contato com a dança ou com outras expressões artísticas, etem a oportunidade de, no tempo vago fora da escola, aprender asrígidas técnicas do balé e a descontraída dança-teatro, além deassistir a espetáculos em teatros, até mesmo fora da cidade."Adorei assistir ao espetáculo do Quasar, no ano passado. Éimpressionante", conta Denis que viu Coreografia para Ouvir no Teatro do Sesi, em São Paulo. "Não pretendemos formar bailarinos profissionais,embora forneçamos conhecimento técnico por meio de oficinas edas próprias aulas. A proposta está na sociabilização dessascrianças e dar a elas novas perspectivas de vida", explicaMarcelo Proença, diretor da companhia. A idéia dos organizadores e professores do Núcleo éutilizar a dança como instrumento de transformação, não apenassocial, mas da visão da própria dança. "Esse é um projeto queatinge a cidade toda. Trabalhamos culturalmente tendo como alvoa cidadania. A primeira apresentação que realizamos foi em umafeira livre. Um espaço alternativo, diferente para as crianças einusitado para a população. Percebemos que muitas pessoas nãoconheciam a dança ou nunca tiveram oportunidade de assistir a umespetáculo", conta Proença. Douglas Moreira conta como sesentiu: "Todos ficaram olhando para o grupo. Deu um pouco devergonha, ainda mais quando passou na televisão. Até hoje aspessoas perguntam da apresentação e querem saber quando faremosde novo." Mais do que aulas de dança, as crianças recebem diversasformas de apoio, como acompanhamento psicológico e dentário,além de reuniões com os pais para que possam conhecer ocotidiano dessa moçadinha no Núcleo e discutir assuntospertinentes aos alunos, à dança e, ainda, conhecer um pouco maisa vida pessoal de cada um dos participantes. Um dos temasdiscutidos é a questão do preconceito envolvendo meninos nadança. "Conversamos muito, tanto com a família como com osmeninos. Esse assunto ainda é delicado e o acompanhamento deveser constante." Para evitar desgastes, o Núcleo criou a oficinavoltada para meninos, denominada Menino Arteiro. "Depois quecomecei a dançar minha vida mudou, não sou tão tímido, consigome relacionar melhor com as pessoas", comenta Douglas. O projeto alçou asas e um grupo composto por meninos emeninas de diferentes idades viajará em agosto para a Bahia, coma finalidade de participar do Festival 9.º Dance and ChildConference, conhecido como Daci, ligado à Unesco. O Daciprioriza os estudos voltados às crianças e aos adolescentes, nãosomente promove a pesquisa, como a troca de idéias entre grupose instituições. O Centro de Conferência de Salvador será o palco, do dia 3 a 10 de agosto, de projetos de 20 países - do Brasiloito projetos fazem parte da lista. Os artistas mirins do Núcleo estão em contagemregressiva. "Estamos ensaiando em torno de 10 horas semanaispara a viagem. Também temos algumas atividades preparatórias,como dormir no Centro Cultural. Cada criança traz o seu colchãoe é responsável por suas coisas." As mães ficaram maisassustadas. "Quando demos a notícia em uma reunião, o silênciotomou conta da sala. As mães ficaram surpresas, preocupadas, masjá aceitaram a idéia." A Quadra Companhia de Dança nasceu há 7 anos,composta por um elenco de 15 artistas de formações distintas.Atualmente com quatro profissionais, a Quadra tem como propostafomentar a dança na cidade. "Nunca cobramos por nossosespetáculos, procuramos democratizar a dança. Também temos aintenção de abrir espaço no interior, não pretendemos sair deVotorantim." Por meio da dança-teatro, os bailarinos contam histórias sem uma seqüência narrativa. Sempre, ao término dasapresentações, há um bate-papo com o público. "Levamos aosespectadores o nosso processo de trabalho, idéias e referências.Percebemos que muitas pessoas redescobrem aquilo que acabaram deassistir." As coreografias discutem as relações humanas ecomportamentais. Nesta semana, a Quadra foi convidada para ir aParis, com o intuito de participar do Fórum de Dança, umarealização do Centro de Ação Cultural Georges Bressens, aindasem data definida.

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