Companhia das Letras fecha parceria com Penguin Books

Editora brasileira assina acordo com a americana para a publicação de clássicos em formato acessível

Gustavo Chacra, de O Estado de S. Paulo,

10 de setembro de 2009 | 10h15

A Companhia das Letras e a Penguin Books anunciaram nesta quarta, 9, em Nova York, um acordo para o lançamento dos clássicos da tradicional editora britânica em um selo conjunto com a brasileira. Com o nome de Penguin Companhia Clássicos, a coleção será publicada em 2010. Haverá ainda uma outra seleção composta apenas por clássicos brasileiros. Os livros da coleção dos clássicos estrangeiros terão design similar ao das edições publicadas em inglês. Já os brasileiros utilizarão o desenho antigo das obras da Penguin, com o título no meio de duas faixas coloridas.

 

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Indagado pelo Estado se a editora britânica pretende publicar autores brasileiros na sua coleção internacional em inglês, Stephen Morrison, editor-chefe da Penguin, respondeu que, em breve, Os Sertões, de Euclides da Cunha, será incluído na lista. John Makinson, CEO da Penguin, disse ainda que eles pretendem consultar a Companhia das Letras sobre quais autores clássicos brasileiros devem ser publicados.

 

Inicialmente, serão editados 24 títulos no Brasil no ano que vem, pouco mais de 10% do total de livros publicados pela Companhia das Letras em 2008. A tiragem mínima de cada um deles será de 5 mil exemplares e os preços devem variar entre R$ 15 e R$ 35. O número de autores se elevará ao longo dos anos e, de acordo com Makinson, o pensamento é "a longo prazo" e não no retorno imediato.

 

Luiz Schwarcz, presidente da Companhia das Letras, afirmou que alguns dos diferenciais da coleção da Penguin em relação aos clássicos publicados pelas outras editoras no Brasil são os textos de introdução e as notas do editor.

 

Nas edições brasileiras, essas tarefas ficarão a cargo de autores consagrados e pessoas conhecidas. "Fernando Henrique Cardoso escreverá o prefácio de O Príncipe, de Nicolau Maquiavel", disse o editor brasileiro. "Mas as apresentações da edição britânica serão mantidas", acrescentou. "Outra vantagem é a junção do design diferenciado, a qualidade e o preço acessível dos livros", completou Morrison.

 

O acordo entre as duas editoras também pode se expandir para outras áreas no futuro, afirmou Schwarcz, quando questionado pelo Estado. "Temos muitas similaridades. Somos fortes em ficção, história e política." O editor ressaltou ainda a ligação tanto da Penguin como da Companhia das Letras com o setor educacional.

 

Uma possibilidade para a ampliação do acordo seria trazer para o Brasil uma série sobre livros de autores africanos que será lançada pela Penguin Books em inglês com o nome de African Series, que inclui alguns escritores nativos de Moçambique e Angola. "Pensamos também em criar coleções de clássicos do Oriente Médio e acabamos de abrir nosso escritório nos Emirados Árabes", informou John Makinson. "A América Latina também é outra opção." Ele acrescentou que a Companhia das Letras poderia ser um parceiro natural nesse último caso.

 

O desenvolvimento das livrarias no Brasil foi elogiado por Morrison, depois de visita a São Paulo. Schwarcz considera as lojas brasileiras melhores do que muitas de Nova York. Os brasileiros, assim como os britânicos, ainda não adotaram o hábito de ler o Kindle, e-book da Amazon, no qual é possível armazenar milhares de livros.

 

Entre alunos de universidades americanas, o Kindle se tornou uma febre no início do ano letivo e alguns deixaram de comprar obras em livrarias. "Estamos usando os Estados Unidos como laboratório. No caso dos clássicos, os leitores podem clicar em links no texto e ver, por exemplo, como as pessoas se vestiam na época que aquele livro foi escrito", afirmou Makinson, lembrando que os clássicos da Penguin lideram a lista dos mais vendidos para o Kindle nos Estados Unidos. Esse mecanismo pode, futuramente, ser implementado no Brasil.

 

Segundo Makinson, o mercado editorial não sofreu tanto com a crise na Europa e nos Estados Unidos, apesar de pequenas quedas nas vendas, "mas bem inferiores ao mercado de música e de DVD". Já a Companhia das Letras, que bateu seu recorde de vendas em 2008, registrou um aumento ainda maior, de 13%, neste ano.

 

As duas editoras consolidaram seu nome de uma forma diferente, mas acabaram, segundo seus presidentes, adotando perfis similares. Fundada em 1935, de acordo com o histórico divulgado pela editora, a Penguin foi criada por Allen Lane para oferecer livros de qualidade a um preço acessível. A ideia surgiu depois de perceber a falta de boas obras à venda em estações de trem. A coleção dos clássicos surgiria 11 anos mais tarde e a marca Penguin conseguiu tornar-se um ícone da literatura em inglês.

 

A Companhia das Letras foi fundada por Luiz Schwarcz em 1986, 40 anos depois do lançamento dos clássicos. Ao avaliar sua trajetória, o editor acrescenta que o objetivo sempre foi "primar por uma linha editorial de qualidade". Recentemente, buscando oferecer livros a preços mais baixos, a editora relançou antigos títulos com o selo Companhia de Bolso.

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