Companhia curitibana monta "Nostalgia"em SP

Protagonistas de uma success story do teatro brasileiro, eles agora são o xodó das estrelas. O diretor carioca Felipe Hirsch e o ator curitibano Guilherme Weber, líderes da Sutil Companhia de Teatro, de Curitiba, iniciaram o terceiro milênio a todo vapor. Têm compromissos de trabalho marcados até 2003. Em abril, com Felipe na direção e Guilherme na produção, estrearam no Rio A Memória da Água, da britânica Shelagh Stephenson, com Andréa Beltrão, Eliane Giardini e Ana Beatriz Nogueira integrando o cast. Em novembro, outra encenação com a chancela da Sutil vai engrossar a temporada carioca: Jantar entre Amigos, de Donald Margulies, com Xuxa Lopes e Renata Sorrah no elenco.A partir do primeiro semestre de 2002, o grupo paranaense dará início a uma parceria com Marco Nanini e Marieta Severo que prevê quatro espetáculos e uma grande turnê nacional com palestras e worskhops. A primeira peça da tetralogia, Histórias do Adeus em Diante, integrada por fragmentos de obras de Nick Silver, que Hirsch define com "um escritor underground americano", autor de "comédias violentas", inicia carreira em março, no Teatro Alfa, em São Paulo.Os rapazes da Sutil têm um ritmo alucinante de trabalho. Há duas semanas encerraram a segunda temporada paulistana de A Vida É Cheia de Som e Fúria, adaptação do romance Alta Fidelidade, de Nick Hornby, com que lotaram por dois meses o Teatro do Sesi, na Avenida Paulista. E a partir de amanhã apresentarão, no mesmo endereço, uma nova encenação, Nostalgia.A obra é baseada em textos de outro escritor americano, John Fante, autor de clássicos como Pergunte ao Pó. A direção é de Felipe Hirsch. Guilherme Weber, protagonista de Som e Fúria, maior sucesso do teatro brasileiro desde a estréia em Curitiba, no início de 2000, lidera o elenco, integrado por Ana Kutner e outros quatro atores. Os cenários têm a assinatura de Daniela Thomas, que desenha para a Sutil Cia. pela primeira vez.Nada mau para uma turma de jovens que, em fins dos anos 80, eram admiradores obsessivos de Beckett e Bergman e foram fazer teatro porque era uma coisa "diferente". Como era a vida em Curitiba? "O céu sempre cinza, nada a fazer, a gente lia Fante e ouvia rock", diz Hirsch. Apesar disso, a Sutil Cia., criada em 1993, tem um caso de amor com Curitiba. Desde o ano passado vem atuando ininterruptamente no Rio e em São Paulo. Mas arrumou modo de produzir, apenas na capital paranaense, no fim do primeiro semestre, uma superprodução, Os Incendiários, adaptada de Biedermann e os Incendiários, do dramaturgo austríaco Max Frisch."A Sutil não é apenas um grupo de teatro", explica Hirsch, "é uma companhia de criação. Trabalhamos sempre com a mesma equipe técnica. E estamos desenvolvendo uma pesquisa sobre a memória, que é tema de todas as nossas criações." O que muda no grupo é o elenco. Há um núcleo fixo, que inclui Weber, Éricka Migon, mais algumas pessoas. Os outros atores são convidados a cada trabalho. "Assim não vamos precisar passar talco no cabelo se quisermos produzir um Chekhov", brinca Weber.Hirsch afirma que as montagens sem atores estelares e as de elencos estrelados são "todas produções ou co-produções da Sutil Cia. Não estamos sendo chamados para trabalhar fora de nossa estrutura. É o grupo, como um todo, que vem sendo convidado para participar de determinados projetos. Temos tido a sorte de ser convocados por grandes atores que nos indagam: ´O que vamos fazer juntos?´´" Mesmo porque, acrescenta Weber, "são poucos os atores que têm projetos pessoais. Na maior parte eles vagam por aí, órfãos, em busca de um diretor que os organize".BeckettNascido no Rio, Hirsch mudou-se para Curitiba com a família aos 13 anos. Ele e Weber conheceram-se em 1988, quando estavam no segundo ano do segundo grau. "Fiquei interessado por aquele garoto que lia Beckett", diz Weber. "Quando conversamos, descobrimos que fazíamos teatro amador. Felipe queria ser diretor. Achei fantástico. Todo o mundo que começa quer sempre ser ator." Nenhum deles concluiu a universidade. Cursaram teoria do teatro por três anos, na UniRio mas abandonaram sem terminar. Felipe estudou também história e jornalismo, que deixou antes do fim. "Voltamos para Curitiba, onde era possível iniciar um trabalho teatral em condições que não teríamos no Rio", conta Weber.A estratégia deu certo. Estrearam em 1993 com um monólogo, Baal Babilônia, em que Guilherme Weber personificava o dramaturgo espanhol Fernando Arrabal dizendo textos extraídos de seu diário. Vieram a seguir, em 1994, Um Fausto, ambiciosa adaptação de Goethe, e em 1996 Estou te Escrevendo de um País Distante, em que recriaram Hamlet. Em 1997, Cartas para não Mandar levou para o palco temas de Paul Auster. Em 1998, produziram Juventude adaptada de Ah Wilderness!, de Eugene O´Neill. Em 1999, Por um Novo Incêndio Romântico antecedeu o sucesso de A Vida É Cheia de Som e Fúria, que em 2000 levou o grupo a deixar enfim o berço curitibano."De todos os espetáculos que fizemos até hoje", diz Hirsch, "só A Memória da Água, que considero minha melhor direção, é de autoria de alguém externo ao grupo. A dramaturgia das montagens é sempre nossa. É a linguagem que mais pesquisamos o instrumento que nos permite ir para onde queremos". A memória como tema surgiu desde Baal Babilônia, mas impôs-se em Estou te Escrevendo..., uma versão de Hamlet contada por Horácio. "A memória nos permite lidar com a narrativa em ritmo veloz", diz Hirsch. "Nossos espetáculos não são naturalistas, mas os atores têm de trabalhar em uma linha naturalista." Todas as montagens da Sutil Cia. têm uma tela transparente separando o palco da platéia. É uma das assinaturas do grupo. A outra, diz Weber, "é o choque do naturalismo da nossa interpretação com a linguagem estilizada dos espetáculos".Nostalgia - De Felipe Hirsch e Guilherme Weber. Direção Felipe Hirsch. De quinta a sábado, às 20 horas; domingo, às 19 horas. Grátis (retirar convites com uma hora de antecedência). Teatro Popular do Sesi. Avenida Paulista, 1.313, tel. 284-3639. Até 2/12

Agencia Estado,

30 de agosto de 2001 | 22h13

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.