Companhia Balagan estreia espetáculo 'Recusa' em SP

Dois índios, de uma tribo considerada extinta, vagam por fazendas de Mato Grosso. Há mais de 20 anos não havia sinal da sua etnia, os piripkuras. Mas essa dupla de sobreviventes se recusa a fazer contato com quer que seja. Não quer falar com homens brancos. Não quer ajuda. Juntos, eles apenas riem das histórias que contam um ao outro. Preferem ficar sós.

AE, Agência Estado

04 Outubro 2012 | 10h29

Em "Recusa", espetáculo que entra em cartaz quinta, a companhia Balagan tomou esse episódio verídico como ponto de partida. Veiculada pela imprensa em 2008, a notícia surge como mote para a parceria entre a diretora Maria Thais e o dramaturgo Luís Alberto de Abreu. De posse da história, eles organizaram uma montagem que entrelaça diversos olhares.

Além dos dois índios piripkuras, também aparece uma dupla de heróis ameríndios, Pud e Pudleré. O fazendeiro que matou um índio e sua vítima. Macunaíma e seu irmão. "Tentamos aprender como multiplicar perspectivas. Em vez de tentar apreender o mundo por uma perspectiva só", explica Eduardo Okamoto, ator que divide a cena com Antonio Salvador. "Para esses povos não é possível nunca anular as diferenças, porque o mundo é feito delas. O que é um pouco diferente da tradição europeia e ocidental, em que há uma voz única, um só ponto de vista."

A vontade de apreender o mundo de outra maneira, que não a usual, já havia motivado a criação anterior da companhia. Em "Prometheus - A Tragédia do Fogo" enredos múltiplos e cenas descontínuas foram convocadas para recontar o mito grego. Recusava a dimensão heroica de Prometeu, titã que rouba o fogo dos deuses para entregá-lo aos homens. Nos dois espetáculos, organizam-se cosmologias diferentes da nossa: de um lado a grega, do outro a ameríndia. Um outro traço comum também aproxima as montagens: em ambas, os mitos criadores partem da figura de gêmeos. "São dois tratamentos completamente distintos para a ideia de duplo", pontua a diretora. "Para os gregos, o gêmeo de Prometeu, que é Epimeteu, precisa ser morto. No caso ameríndio, o duplo é necessário."

Para compor a peça, Abreu partiu de uma série de discursos de naturezas distintas: além do episódio jornalístico, narrativas antropológicas, passagens míticas e discursos de entidades ligadas à causa indígena foram utilizadas. Também não faltaram canções e transcrições de relatos dos próprios indígenas. Durante a processo de pesquisa para construção da montagem, o grupo passou um período na aldeia Gapgir, em Rondônia. "Mas temos plena consciência de que esse não é o discurso deles. Não é a voz deles. Somos nós que estamos falando", ressalva a encenadora. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

RECUSA

SP Escola de Teatro (Praça Roosevelt, 210, Consolação). Telefone (011) 3775-8600. 5ª a sáb., 21h30; dom., 19 h. R$ 10. Estreia 4/10. Até 16/12.

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