Imagem Mario Vargas Llosa
Colunista
Mario Vargas Llosa
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Companheiro de carteira escolar

O que nos interessava na época era o futebol, no que éramos igualmente os piores

Mario Vargas Llosa, O Estado de S. Paulo

06 de janeiro de 2020 | 05h00

Quando José Miguel Oviedo começou a escrever resenhas de livros no suplemento de domingo do jornal El Comercio, no final dos anos 1950, houve uma mudança significativa na cultura peruana. Até então não havia críticos literários propriamente ditos no país, apenas articulistas ou historiadores de literatura. José Miguel era um caso raro. Seus textos eram verdadeiros ensaios, comparáveis aos de Cyril Connolly em Londres ou Edmund Wilson e George Steiner em Nova York. Não exagero: a mesma profundidade, a vasta informação, a severidade e a exigência idênticas. Sem falar no fato de que as vítimas desses julgamentos críticos, boa parte delas escritores peruanos, o detestavam.

Certa vez, num dos nossos esporádicos encontros pelo mundo, perguntei a ele se a dureza de suas críticas não era injusta com os injuriados poetas, dramaturgos e romancistas peruanos. “Não há desculpas”, ele respondeu com a súbita ferocidade dos tímidos.

“Escrevem no mesmo tempo em que o fazem Virginia Woolf, Faulkner ou Borges, ou T.S. Eliot e Neruda. Deveriam ser tão bons como eles ou renunciar à literatura.”

Nesses mesmos anos, sem que José Miguel e eu suspeitássemos, a literatura hispano-americana deu um salto espetacular, e apareceriam ou seriam resgatadas obras como as de Onetti, Roa Bastos, Rulfo, Cortázar, Sábato, García Márquez e muitos outros que colocariam a literatura da América Latina no foco de interesse e curiosidade de meio mundo.

Em sua indispensável autobiografia (Uma Loucura Razoável: Memórias de Um Crítico Literário), José Miguel presta homenagem ao semanário Marcha, de Montevidéu, e a dois críticos uruguaios, Angel Rama e Emir Rodríguez, por terem contribuído em grande parte para esse fenômeno que conquistou tantos leitores para nossos escritores e fez o mundo saber que não havia apenas rancheiros bêbados e ditadores povoando nossas terras, e que havia também uma literatura interessante. Mas esqueceu-se de dizer que o melhor e mais profundo crítico desses anos do “boom” literário foi ele próprio. Em seu livro estão os ensaios que escreveu para provar isto, o que ficará evidente sobretudo quando reunirem em um ou vários livros as incontáveis críticas que, nas revistas e periódicos de todo o continente o próprio Oviedo escreveu sobre a nova literatura hispano-americana e seus autores.

Durante três anos fomos companheiros de classe no colégio La Salle, de Lima, e durante um ano dividimos a mesma carteira escolar. E descobri isto ao rever velhos papéis, trinta ou quarenta anos depois, graças ao desenho feito por ele em uma cartolina branca, de Ana María Álvarez Calderón, Rainha da beleza peruana dos anos 1950, com esta dedicatória “Para meu companheiro de carteira, Mario Vargas Llosa” e assinado José Miguel Oviedo. Nenhum dos dois sabíamos então que ambos estudariam Letras (ele na universidade Católica e eu em San Marcos) e que frustraríamos nossas mães nos tornando escritores (a mãe dele sonhava que ele se tornasse um advogado de sucesso e a minha que eu me dedicasse à diplomacia). O que nos interessava na época era o futebol, no que éramos igualmente os piores. Ele inventou, em suas memórias (ou eu me esqueci), que me chamavam de “Coca-Cola” e não sei a razão pois nunca gostei dessa bebida efervescente que arranhava a garganta.

Quando, em 1970, José Miguel aceitou o cargo de Diretor de Cultura do Governo Militar do general Velasco Alvarado, seus amigos estremeceram. Ele se aliaria à demagogia frenética que imperava? Entregaria a cultura peruana ao bando de comunistas e congêneres que pouco depois sequestraria os jornais, as emissoras de rádio e de televisão, acabando com a liberdade de imprensa no Peru? Mas ele teve uma atuação impecável. Não só resistiu aos extremistas e aos próprios militares que lhe perguntavam quando prepararia a Orquestra Sinfônica, mas promoveu o teatro, a boa música e as artes, e publicou revistas literárias excelentes, trouxe para Lima exposições memoráveis como a dedicada ao Surrealismo.

Mas o ano e meio que ali passou acabou com seus nervos e ele precisou recorrer à ioga para se aquietar.

Sem uma crítica de alto nível, todo movimento cultural é amorfo e se desfaz na confusão. Somente os grandes críticos são capazes de estabelecer hierarquias, dar uma ordem de ideias e valores ao que, em princípio, parece uma selva. Foi o que Oviedo fez naqueles anos, quando viajou para a Argentina, Chile, Colômbia, Cuba e México, escrevendo cada semana, às vezes a cada dia, sobre o que descobria e lia.

Seus artigos contribuíram de maneira decisiva para dar à dispersa literatura do continente uma unidade na diversidade.

Anos depois esta ideia seria o núcleo da sua ambiciosa História da Literatura Hispano-americana (Alianza Editorial) em quatro volumes, a melhor já escrita até hoje e a única que se pode ler sem pausas do começo ao fim.

Não sei se foi uma boa ideia de José Miguel partir para os Estados Unidos para lecionar, como todos nós, seus amigos, o incentivamos a fazer. Albany, Indiana, Los Angeles, Filadélfia. Ali passou os últimos 25 anos da sua vida. Ele gostava de Nova York, onde dava aulas no verão, por suas livrarias, exposições e concertos. Tinha estabilidade econômica, algo que nunca desfrutou no Peru, e escreveu livros ambiciosos sem cair no jargão pretensioso e ilegível que nos anos 1970 e 1980 se apresentava como a “crítica científica” da literatura. Seus ensaios tinham sempre um vestígio dos seus textos jornalísticos, de maneira que a barbárie latino-americana sempre esteve viva nele, além da nostalgia.

Mas fazer crítica nesse ambiente exemplar era uma tarefa sem risco nem mistério, algo muito diferente daquele trabalho pioneiro, social e político, ao mesmo tempo que literário, que Oviedo jamais esqueceu.

Acho que os cinco anos que passou em Bloomington, Indiana, foram mais ou menos felizes. Assim me pareceu, pelo menos quando fui visitá-lo. E mais felizes ainda foram seus tempos na Universidade da Califórnia em Los Angeles, onde Martha, sua mulher, trabalhou em um hospital cuidando de enfermos sem condições de se tratar. Mas depois vieram anos muito duros, quando viveu na Filadélfia: o acidente que sofreu e o manteve um ano no hospital, o câncer ao qual Martha sobreviveu, a decadência física dos últimos anos. A última vez que o vi foi na Feira do Livro de Guadalajara. Cabelo e barba brancos, parecia muito frágil. Sua filha Paola o arrastava numa cadeira de rodas. Mas sua conferência foi esplêndida.

Quando soube, por meio de Alonso Cueto, que seu estado de saúde era grave, telefonei para Paola. Ela me atendeu em prantos. Toda a família ali estava, no hospital onde tinham acabado de interná-lo. O médico lhes havia dito que ele não resistiria a uma nova pneumonia. Como ele já não conseguia falar, colocaram o telefone perto dele para que eu pudesse saudá-lo. Disse-lhe que o queria muito e o agradecia por ele ter sido tão generoso com meus livros. Que voltaríamos a nos ver. Depois de um longo silêncio, escutei, de muito longe, sua voz: “Obrigado Mario”.

Poucas horas depois ele faleceu.

Que acabe, enfim, este ano maldito que levou tantos amigos e me deixou sem passado, como um sobrevivente. /TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

Tudo o que sabemos sobre:
literatura

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.