Comovente e justo tributo a Eleazar

Há exatamente 14 anos de sua morte, em 12 de setembro de 1996, o nome do maestro Eleazar de Carvalho foi repetido inúmeras vezes no concerto de domingo, na Sala São Paulo. Ao comemorar seus 70 anos de existência, a Orquestra Sinfônica Brasileira vem promovendo uma série de tributos aos maestros que a comandaram nestas sete décadas. A começar do justíssimo reconhecimento a Eleazar, que recebeu do atual titular da OSB, Roberto Minczuk, uma homenagem emocionada. Fez um perfil minucioso do mais destacado regente brasileiro do século 20, que por 16 anos, entre 1952 e 1968, comandou a OSB.

Crítica: João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

16 de setembro de 2010 | 00h00

Mas, antes, como gostava Eleazar de Carvalho, iniciou o concerto com a execução do Hino Nacional Brasileiro. No programa, duas obras muito significativas para o maestro que foi o maior parteiro de orquestras no País (além da OSB, ele comandou a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo por 23 anos, entre 1973 e sua morte, em 1996): as Bachianas Brasileiras n.º 9 de Villa-Lobos, que ele estreou em 1948 e a ele dedicadas pelo compositor; e a Sinfonia Fantástica de Berlioz, sem dúvida sua obra fetiche, que regeu centenas de vezes em sua longa vida.

Ambas receberam leituras empenhadas da orquestra, que dá mostras de expressiva evolução. A regência de Minczuk prima pela fluência e leveza, características apartadas das de Eleazar, um maestro de regência mais impositiva. Foi bem na dificílima Bachiana 9, exuberante e complexa polifonia a seis vozes; e conseguiu um triunfo na Fantástica (apesar de um ou outro deslize nas cordas), sobretudo da delicada cena campestre em diante, até o delirante sonho de uma noite de Sabá. A ideia de convocar a atriz Tuna Dwek para ler o texto que Berlioz recomendava constar no programa de toda apresentação de sua sinfonia foi ótima; o que provavelmente ninguém entendeu, na Sala São Paulo, foi a leitura em francês e depois em português. Ora, não se trata de texto poético, portanto não havia nenhuma necessidade de se ouvir o original.

O toque contemporâneo ficou por conta da bela, talentosa e loiríssima trompetista inglesa Alison Balsom no concerto do armênio Alexander Arutunian, hoje com 90 anos (que completará no próximo dia 23). Ele o escreveu 60 anos atrás. É obra nacionalista, mas saborosa - e campeã de execuções e gravações no exíguo repertório erudito para o instrumento. Alison domina inteiramente o trompete; e foi simplesmente divina tocando em surdina no Meno mosso, o andamento lento central.

O extra que a plateia exigiu foi quem sabe a mais singela e tocante homenagem a Eleazar de Carvalho: Alison Balsom interpretou uma peça que o maestro regeu por centenas de vezes para abrir concertos festivos, como o daquele começo de noite de 12 de setembro: o Trumpet Voluntary, de Jeremiah Clarke, que em seu tempo ainda era atribuída a Henry Purcell.

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