Claudio Onorati/EFE
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Como vender bem o peixe

O ator e diretor Vincent Gallo atrai o público ao não divulgar seus trabalhos

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

07 de setembro de 2010 | 00h00

Vincent Gallo virou o personagem da hora em Veneza. Ao menos por um dia. Chegou de barco ao Hotel Excelsior com a cabeça escondida por uma máscara para não ser reconhecido. É protagonista absoluto de Essential Killing, do polonês Jerzy Skolimowski; escreve, produz, dirige e interpreta Promises Written in Water, filme que, por sua determinação, não tem sinopse disponível no catálogo. Não compareceu à coletiva de imprensa de Essential Killing e mandou dizer ao público que não dá entrevistas de qualquer tipo e não pisará no tapete vermelho que leva ao Palácio do Cinema para a projeção oficial. Tipo difícil, não é?

O resultado é que esse antimarketing funcionou direitinho: as filas eram longas para a primeira sessão de Promises Written in Water, lotando a imensa (e desconfortável, porém de boa projeção) Sala Darsena. Tudo porque, além do apelo carismático de Gallo, com sua aura de maudit, o filme, em si, prometia cenas fortes.

E não decepcionou, nesse sentido, embora não se compare ao anterior, The Brown Bunny, que eletrizou o Festival de Cannes de 2003 com um longo fellatio, em tempo real, encenado, ou vivido de forma real, pelo próprio Gallo e sua partner na ocasião, Chloé Sevigny. Em Promessas Escritas na Água, o máximo que se vê é um corpo feminino explorado em detalhes, tudo em primeiro plano - boca, língua, orelha, seios, pernas e um close final no púbis.

No entanto, o filme não é a celebração do sexo, mas um embate com o amor e a morte. Ouve-se no início uma voz de mulher, em off, dizendo que não tem medo de morrer, e que o namorado deve tomar conta do seu corpo quando ela se for. É uma doente terminal, Charlotte (a belga Delfine Bafort), que passa a ser evocada ao longo do relato. Se é que se pode chamar relato ao que se vê na tela.

Gallo filma em planos parados, longos, evocativos, num bonito preto e branco. Prefere ser poroso que redundante; trabalha com lacunas. Repete (falas e imagens), não para ser didático, mas para provocar estranheza. Não fosse sua presença narcísica e insistente diante da câmera, o filme seria melhor do que é. Mas há uma dor, que o leva além da ego trip. Ao fim, alguns aplausos. E muitas vaias.

Já em Essential Killing, Gallo tem de se colocar a serviço de outro diretor e portanto alcança alguma disciplina como ator. Ele faz o guerrilheiro afegão Mohamed, preso pelo Exército americano, torturado e depois levado para um país europeu indeterminado, onde consegue fugir. Parece incrível, mas Gallo interpreta à perfeição um taleban.

A essência do filme é a perseguição levada a cabo através de uma gélida paisagem nevada. "Foi filmado na Noruega", informa Skolimowski na entrevista à qual Gallo faltou. "E", ajunta o diretor, "não quis fazer um filme político, ou de denúncia do que quer que fosse, mas apenas registrar as reações de um homem desesperado, em fuga, ferido, faminto e disposto a matar quem encontrasse pelo caminho."

Há, no entanto, em meio a tanta desolação, uma cena de grande ternura, quando Mohamed é acolhido por uma desconhecida interpretada pela francesa Emmanuelle Seigner.

Brasileiro. O único brasileiro a disputar prêmio este ano, o curta O Mundo É Belo, de Luiz Pretti, foi bem acolhido pelo público. E não se trata de obra fácil. Mostra o céu, o rumor do mar, do vento nas árvores. É sensorial e tenta tratar, de forma cinematográfica, essa epifania jovem de se descobrir vivo, diante da beleza das coisas. Comovendo-se, ele nos comove.

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