Soren Solkær Starbird/DIVULGAÇÃO
Soren Solkær Starbird/DIVULGAÇÃO

Como uma manada desgovernada de elefantes americanos

Quinteto Cage The Elephant se apresenta no palco Butantã do Lollapalooza

Pedro Antunes - Jornal da Tarde,

04 de abril de 2012 | 11h07

Nunca os telefones celulares dos integrantes do Cage The Elephant, os irmãos Matthew (voz) e Brad Shultz (guitarra base), Lincoln Parish (guitarra solo) e Daniel Tichenor (baixo), receberam tantas ligações como naquela noite de outubro de 2011. O baterista da banda, Jared Champion, precisara ser internado às pressas depois que seu apêndice estourou. Mas não eram amigos querendo saber da saúde dele. Eram parabéns entusiasmados pelo substituto que assumiu as baquetas naquele show. Os fãs urraram ao ver Dave Grohl sentado ali.

Queridinhos do líder da atual banda suprassumo do rock, o Foo Fighters de Grohl, o Cage The Elephant acompanha o grupo em sua vinda ao Brasil, como banda principal do festival Lollapalooza, neste fim de semana no Jockey Club, no Morumbi. Mas se o Foo Fighters é o carro-chefe e encerra a noite de atrações, o quinteto americano do Cage The Elephant se apresenta ao público brasileiro no palco Butantã em horário ingrato, às 15h, como os primeiros artistas internacionais do line up.

Nada que os desanime. Com público cativo nos Estados Unidos e na Europa, o quinteto da cidadezinha de Bowling Green, no Kentucky (EUA), tem experiência em festivais. Com o show de sábado, serão cinco apresentações em Lollapaloozas. Anteriormente, se apresentaram três vezes em Chicago (2007, 2009 e 2011), e uma no Chile (no último fim de semana). “Acho excitante”, diz Brad Shultz, um dos guitarristas.

A perspectiva de um público estranho, para ele, é desafiadora. “Essa experiência de primeiro encontro é uma oportunidade de ganhar as pessoas, não concorda? É um sentimento gostoso de curiosidade”, continua o músico, otimista. “Vai ser ótimo. Sempre quisemos ir para a América Latina, mas as datas nunca batiam. Enfim, deu certo.”

O Cage The Elephant está em seu segundo disco, lançado em janeiro do ano passado. Thank You, Happy Birthday, sucesso de crítica (leia ao lado), acaba de chegar no Brasil, pela EMI. Ou seja, ainda dá tempo de conhecer canções como Alberdeen, 2024 e Shake Me Down.

A banda nasceu em 2006, sob o nome de Perfect Confusion. “Era o pior nome da história”, brinca Brad Shultz. O processo até o nome atual, que em tradução livre quer dizer “prenda o elefante”, ele diz desconhecer. “Vou ser honesto, não me lembro como chegamos a esse nome. Mentimos tanto sobre isso que esqueci qual era a história verdadeira.”

Por sorte, eles mudaram. E não se engane com a carinha de meninos comportados. Como uma ensandecida manada de elefantes, o Cage The Elephant parece destruir tudo por onde passa, com shows explosivos, guitarras em combustão e um vocal versátil.

O fã famoso, Dave Grohl, foi conquistado pelo espírito livre da banda no palco. No festival Radio 1’s Big Weekend, no ano passado, na Inglaterra, a banda queria assistir ao show do Foo Fighters, mas não conseguiu.

“Escrevemos uma carta para Dave (Grohl), explicando (risos). Ele ficou curioso e foi nos ouvir num outro festival. Gostou do nosso som e nos chamou para abrir a turnê deles (do disco Wasting Light, lançado ano passado). E quando o apêndice do Jared (Champion) estourou, ele tocou com a gente. Surreal.” ::

CRÍTICA: Cinco garotos de Kentucky ressuscitam o grunge

É fácil entender porque Dave Grohl adora esses caras. O quinteto de Bowling Green, cidadezinha de 45 mil habitantes no Kentucky formado por jovens com menos de 30 anos, trouxe algo que estava em falta: guitarras pesadas e vocais enlouquecidos, distribuídos por boas baladas e rocks poderosos. Thank You, Happy Birthday (2011), lançado agora no Brasil, é o segundo disco do Cage The Elephant, mostrando uma banda mais madura, centrada e consciente do próprio barulho.

No primeiro álbum, que leva o nome do grupo, lançado em 2008, tudo soava cru demais. Faltava mais vivência, conhecer as novidades. Era um rock pesado e caipira. As guitarras avassaladoras, sempre ponto forte do grupo, por vezes soavam desgovernadas.

Nada como ver (e ouvir) o mundo. Quando começaram a excursionar, ainda em 2008, perceberam que suas influências poderiam ser mais do que Pixies, o próprio Nirvana e outras bandas do movimento grunge. Tiveram contato com bandas inglesas como Arctic Monkeys (que também tocará no Lollapalooza, fechando o segundo dia) e ganharam consciência, sem necessariamente abrir mão do barulho ensurdecedor. Acharam a receita.

O álbum não só ressuscita o grunge, como o moderniza. Eles não têm medo da música eletrônica, que traz novas e interessantes texturas em Flow, faixa que fecha o disco pisando no freio, um descanso após 11 faixas pesadas. O acelerador está ao máximo logo em Always Something, um rock soturno e denso. Mais solar, Alberdeen é uma homenagem à cidade natal de Kurt Cobain, ex-líder do Nirvana, e um hit instantâneo. E tem Matthew Shultz gritando até comportadamente no refrão.

Luz e escuridão se alternam no álbum. A seguinte é Indy Kidz, e ali os gritos de Shultz se tornam insanos. Shake Me Down, por outro lado, é a maior balada do grupo. Mas m esmo na calmaria, o Cage The Elephant consegue ser eletrizante. Com eles, o grunge está (bem) vivo. E Dave Grohl mostra que seu radar está mais antenado do que nunca. P.A.

LANÇAMENTO

‘Thank You, Happy Birthday’ - EMI

Preço: R$ 24,90

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