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Como uma fábula

Coprodução entre Argentina e Brasil, 'Juan e a Bailarina' tem tom intimista

Flavia Guerra, O Estado de S.Paulo

12 de abril de 2013 | 02h16

Há muito que os fãs do cinema argentino, famoso por seus orçamentos modestos e roteiros bem construídos, em geral sobre dramas de pessoas comuns vivendo situações incomuns, reclamam que o Brasil precisa fazer mais filmes argentinos. Pois bem, chega hoje ao cinema Juan e a Bailarina. Coprodução entre Brasil e Argentina, escrita, produzida e dirigida pelo carioca Raphael Aguinaga, o filme é um típico filme argentino. Tem olhar delicado e intimista sobre seus personagens, um grupo de velhinhos que, trancafiados em um asilo, veem seu contato com o mundo praticamente restrito a uma TV e a um rádio.

O isolamento piora quando a enfermeira que cuida deles tira férias e deixa seu filho, a quem eles chamam carinhosamente de 'bruxo', em seu lugar. O substituto confisca a TV dos hóspedes, que acabam encontrando, ainda que de forma incerta, uma maneira de se rebelar conta a tirania. Para completar, surge a notícia de que Jesus Cristo foi clonado e agora tem uma namorada portadora do vírus HIV. "Este filme é uma fábula. E foi muito difícil manter esse tom de dez centímetros acima do chão que as fábulas têm. Não podia ser no chão, não podia voar. Tinha de manter um equilíbrio delicado", comenta Aguinaga, explicando o porquê do tamanho apego que teve ao transpor para a tela exatamente o que havia escrito no roteiro, que levou cerca de cinco anos para ficar pronto.

Após percorrer algumas produtoras nacionais com o roteiro debaixo do braço, e descobrir que nunca realizaria o filme com menos de R$ 3,5 milhões, resolveu levar o projeto a produtores argentinos e bancar o longa com R$ 2 milhões de suas próprias economias. "Todos diziam que, como eu não queria fazer uma comédia mais escrachada - o que traria mais sucesso comercial -, meu roteiro tinha mais a ver com o modo argentino de produzir. Então, levei a história para o produtor Hérnan Musaluppi - de Whisky e Medianeras. Ele topou e assim foi. Juan e a Bailarina se tornou um filme argentino brasileiro", conta o diretor, que no início queria rodar a história no Retiro dos Artistas no Rio.

A trajetória de Aguinaga como cineasta é tão particular quanto a feitura de seu primeiro filme. "Minha formação é o mercado financeiro. Comecei trabalhando em um banco de investimentos, aos 20 anos. Vim do Rio para São Paulo, morava na Alameda Jaú e trabalhava na Avenida Paulista. Chegava tão cedo ao escritório que escrevia poesia todos os dias antes do trabalho", conta o diretor.

"Anos depois fui trabalhar na Petroquímica União, no polo petroquímico do ABC. Imagina. Dois opostos! Meu bisavô fundou a empresa e eu era a terceira geração que iria tocar os negócios", relembra ele, que entrou para o comitê de responsabilidade social da empresa e começou a cuidar de projetos culturais. Entre eles, o cinema. "E exibimos filmes, conheci o Breno Silveira, que mostrou 2 Filhos de Francisco, filme que teve patrocínio da PQU."

Nesse meio tempo, Aguinaga lançou um livro de poesias e, em vez de fazer uma sessão de autógrafos comum, resolveu organizar performances e encomendar um curta. "Era um filme que falava de um poema meu, que mostrava a diversidade. quanto as pessoas diferentes, como as do Rio e de São Paulo, podiam ter muito em comum. E descobri que com o cinema, em vez de ficar trancado num quarto escuro, como fazia quando escrevia poesia, podia levar minhas emoções para um 'campo de futebol'".

Paralelamente, Aguinaga perdeu o avô em 2006. "Convivi muito com esse grande amigo, que eu admirava. Era um homem profissional e sério, mas, quando podia ser ele mesmo, e ter momentos de lazer. se tornava um menino. Este filme é para ele."

A perda desencadeou uma 'crise dos 40 precoce' e empurrou Aguinaga para Paris, onde foi cursar roteiro na Escola Louis-Lumière. "Indicação de quem? Do Breno Silveira. Veja só como as coisas acontecem. E agora mostro em breve meu longa Festival de Cinema Brasileiro de Paris, o mesmo em que ele vai mostrar Gonzaga. É mais uma felicidade."

São essas e outras pequenas grandes fábulas que cercam a carreira de Aguinaga. "Agora é contar que o público vai entender e se identificar com meu romantismo."

JUAN E A BAILARINA

Direção: Raphael Aguinaga

Gênero: Comédia (Brasil-Argentina/2011, 89 min)

Classificação: 12 anos

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