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Leandro Karnal
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Como tratar alguém?

Meu receio de incomodar torna imperativa a regra de certas condutas de etiqueta

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

26 Setembro 2018 | 05h58

Jovens: confiem no tio, existia um tópico em Português chamado “pronomes de tratamento”. Estudávamos toda a lista: Vossa Senhoria, Sua Excelência, Ilustríssimo, Vossa Magnificência, Reverendíssimo, suas respectivas formas abreviadas, usos corretos e, refinamento final, quando usar Sua Excelência e Vossa Excelência. O uso era maior do que hoje: quase toda carta chegava ao meu pai com Ilmo. Dr. e nós olhávamos a abreviatura com a tranquilidade de quem sabia o significado. Todos os mais velhos eram senhor e senhora. Meu pai usava o já arcaico “senhorita” seguido da expressão “por obséquio”. O mundo tinha matizes, vieses, vernizes e salamaleques. O tu e o você eram reservados para intimidades enormes e total isonomia: mesma idade, mesmo gênero, mesma renda... O uso do “Seu” era um pouco mais comum para pessoas que exerciam funções simples. Difícil saber se chamar o jardineiro de “Seu” era um gesto de respeito ou uma demarcação de espaço social. No Rio e no Nordeste, com muita frequência, sou chamado de “Seu Leandro” e acho simpático. Em São Paulo e Brasília, noto mais o doutor. 

Gosto muito do título de professor. Sinto-me um professor, vivo a profissão, tenho orgulho dela. Quando alguém diz “mestre” como se fizesse alusão ao próprio Yoda de Guerra nas Estrelas, acho mais deslocado. Professor sempre me agrada. Meu pai, professor e advogado, sempre era doutor. Eu, professor com grau de doutoramento, quase sempre sou professor. Nunca tive anel de formatura, mas os advogados usavam rubi, os médicos, uma cintilante esmeralda. Nós, professores, teríamos direito a uma pedra negra, ônix, não sei se metáfora de algo. 

Os títulos caíram de moda. Cintilam ainda em encraves como ambiente clínico, jurídico ou diplomático. Lá são obrigatórios e esperados. A gravata ou o estetoscópio demandam o tratamento. Nunca fiz muita questão de respeito demonstrado em pronomes, mas, confesso, a intimidade excessiva e sem base histórica de relação é mais incômoda do que ser chamado de professor-doutor. 

Há uma paralaxe, um desvio, que preciso ressaltar. As pessoas são mais íntimas minhas do que eu delas. Algumas afirmam: “Durmo com você todas as noites” e, por mais que eu perscrute o rosto da interlocutora, nenhuma memória de infração do sexto mandamento vem à lembrança. 

Quanto mais subimos o mapa do Brasil, mais temos uma sociabilidade que inclui o corpo e o toque. Chama-se pelo nome, toca-se muito, fala-se a uma distância de invasão da zona de conforto. A intimidade sem nenhum lastro prévio é algo inquietante para mim. Ouvi, há anos, uma anedota envolvendo Jânio Quadros, por certo apócrifa. Uma repórter faz uma questão chamando-o pelo nome de batismo e ele, empertigado, responde que “intimidade gera filhos e problemas” e que ele não desejaria nenhuma das duas coisas com a dita profissional. Em um país de corpos enlaçados, a figura mesoclítica de Jânio deveria causar espécie, mas, confesso, existe uma discreta fraternidade minha com o falecido presidente em torno da anedota. Quando lidamos com pessoas não conhecidas, o cordão sanitário é algo desejável. 

O brasileiro é cordial, assevera mestre Buarque de Holanda. Ao encontrar alguém, abraçamos, retiramos pó do ombro, espanamos, mexemos nos botões e invadimos regiões do corpo alheio inadmissíveis para o padrão europeu. Chamamos quase todos pelo nome e já inventamos apelidos no primeiro contato. 

Sou um homem de 55 anos que gosta de ser tratado de senhor por aqueles que eu não conheço e pelo título de professor em casos profissionais. Com os íntimos, gosto do nome. Nunca tive apelidos e o surgimento de Lê ou Lelê só me irrita. Acho “Seu” pouco e “Doutor” excessivo. Sei que quem me chama de mestre ou “Seu” não está me atacando ou diminuindo, apenas usando algo do seu universo de sociabilidade. 

Alguém poderia pensar que sou conservador e que, no mundo atual, qualquer formalidade pode ser dispensada. Na mesma esteira, mas em outra direção, poderiam dizer que apenas gosto de enaltecer diferenças e hierarquias entre pessoas que, Deus ou a República, tornam iguais a mim. Talvez essa crítica seja válida, mas, se eu tomar a mesma argumentação a meu favor, poderia dizer que justamente por desconhecer alguém, seus limites, gostos e idiossincrasias, além de saber que essa pessoa partilha o mesmo direito que eu tenho, aproximo-me com cautela e respeito. Meu receio de incomodar, cruzar fronteiras sem ser convidado, torna imperativa a regra de certas condutas de etiqueta pronominal e contenção das mãos, abraços e beijos. Formalidade nunca ofende. Forçar intimidade sempre o faz. Em suma, para responder à pergunta que está no título: trate a pessoa a sua frente como imagina que ela gostaria de ser tratada e não como você gostaria de ser tratado. Se não a conhece, use da formalidade sem perder o espírito republicano. Como sempre, despeço-me com súplicas de que este texto os encontre bem, reforçando aos senhores, senhoras e senhoritas, caríssimos leitores e leitoras, meu mais inefável respeito. Deixo-lhes com votos de estima e consideração: é preciso ter esperança!

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