Como transformar o invisível e o indizível

Nos 40 anos que separam A Guerra dos Pelados de O Contestado - Restos Mortais, muita coisa mudou, menos a percepção de Sylvio Back de que a Guerra do Contestado não é, como se costuma dizer, de forma simplificada, o 'Canudos do Sul'. O próprio Sylvio reconhece que são filmes tão diferentes que parecem feitos por dois autores.

Entrevista com

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

23 de novembro de 2012 | 02h21

A grande pergunta que não quer calar - por que encenar a reconstituição dos massacres do Contestado por meio de médiuns?

Já havia alguma coisa dessa ideia em outro documentário que fiz antes, Bakun, mas na fase das pesquisas para O Contestado falei com o historiador Euclides Philippi, que estava com 90 anos e já morreu. Disse-lhe que queria investir em médiuns para 'ouvir' a história oculta, não presencial de caboclos e soldados envolvidos na Guerra do Contestado, já que no fundo era o que me interessava naquele choque de substrato mítico e mitológico com interesses econômicos e fundiários. Não sou eu que digo, são os historiadores - o Contestado fere interesses multinacionais, e isso há 100 anos. Fugir à historiografia oficial, à visão dominante - minha obra como diretor de ficções e docudramas tem sido toda ela uma tentativa de entender a diferença entre a realidade bruta e o imaginário contemporâneo, depois que um e outro são transformados em cinema. Gosto de trabalhar com narrativas orais e imagens que vêm do passado recôndito. Philippi era espírita e lascou à queima-roupa, e em tom solene, a pergunta se eu também era espírita? Mesmo pego de surpresa, consegui responder na lata: "Sou cineasta!" Ele abriu seu lindo sorriso, contando como incursionou pela mediunidade imperante entre as "meninas virgens" que lideravam os fanáticos do Contestado. Isso consolidou minha vontade de recorrer aos médiuns.

Não vou perguntar o que há de real nisso, porque mesmo se fosse só encenação a força é grande. Mas, afinal, o que é verdadeiro?

A proposta do filme consiste em transformar o invisível e o indizível em visibilidade e oralidade. Nesse sentido, posso dizer que frequento cinematograficamente um pretérito mágico na pele de personagens que poderiam ter existido. O transe pode ser definido como uma insondável camada do inconsciente coletivo e da história do homem e, por isso mesmo, tem sido matéria-prima de altas indagações no campo da física quântica. A matéria perece, mas a consciência jamais desaparece. Não sou espírita, nem cientista e, para mim, tudo isso é a mais pura e límpida poesia. Nada no transe é real. Tudo ali é imaginação e imaginário, um salto no escuro na invisibilidade dos fatos e feitos primevos. Ouso dizer que se trata de prestidigitação rumo ao mais denso dos mistérios da alma humana. A aposta é resgatar, por meio das palavras e da verbalização entrecortada no tempo e no espaço, o que foi esquecido e que é preciso lembrar.

Foi a mesma ideia que o levou a usar a Serenata de Schubert como tema musical?

Ela era muito tocada na época por bandas militares. Gosto da música, mas lamento que pouca gente note a ironia do Hino Nacional cantado por Vicente Celestino no desfecho.

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